Agronegócio

Secas e endividamento corroem produção e renda do agronegócio no Rio Grande do Sul

Levantamento da Farsul aponta perda de 48,6 milhões de toneladas de grãos entre 2020 e 2025 e prejuízo de R$ 126,3 bilhões no setor; ampliação da irrigação e novas linhas de crédito são apontadas como alternativas.

Secas e endividamento corroem produção e renda do agronegócio no Rio Grande do Sul
©Ilustração IA Sônia Baumgarten Klein / we-news.com

Um estudo da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) revelou que, no período de 2020 a 2025, o estado registrou um déficit de 48,6 milhões de toneladas na produção de grãos em relação ao que era esperado. O impacto direto no setor foi estimado em R$ 126,3 bilhões, cifra que sobe para R$ 319,2 bilhões quando se consideram efeitos sobre indústria, comércio e serviços.

Perdas e causas

Os autores do levantamento atribuem grande parte do recuo produtivo a eventos climáticos adversos, especialmente secas recorrentes, que têm dificultado o planejamento das lavouras e aumentado o risco de endividamento dos agricultores. Produtores ouvidos pela reportagem destacam a imprevisibilidade como fator que hoje orienta decisões de investimento e manejo.

“A gente não pode fazer dívida contando com o que vai colher, porque não sabe se vai colher”.

O diagnóstico do setor aponta ainda que o nível de irrigação varia muito entre culturas, o que influencia diretamente a resiliência diante de estiagens. Na safra 2025/2026, praticamente toda a área de arroz do estado era irrigada, enquanto culturas como milho e soja mantinham índices consideravelmente menores.

ItemValor
Perda de grãos (2020–2025)48,6 milhões t
Prejuízo no agronegócioR$ 126,3 bilhões
Prejuízo com efeitos setoriaisR$ 319,2 bilhões
Irrigação — arroz (safra 2025/2026)99,9%
Irrigação — milho17,4%
Irrigação — soja3,8%
Crédito atrasado/renegociadoR$ 45 bilhões
Produtores de leite (2015)84 mil
Produtores de leite (2025)29 mil

Impactos financeiros e sociais

Além dos valores absolutos de perda de produção, o estudo destaca a pressão sobre a capacidade de financiamento dos produtores. O Rio Grande do Sul acumula cerca de R$ 45 bilhões em operações creditícias em atraso, inadimplentes ou em processo de renegociação. A atividade leiteira ilustra o efeito estruturante dessa crise: a quantidade de estabelecimentos produtores caiu de 84 mil, em 2015, para 29 mil em 2025, segundo dados de entidade do setor.

Especialistas consultados defendem que a mera renegociação de débitos não será suficiente para recuperar a saúde financeira do campo. É preciso combinação de ações com horizonte temporal diverso — medidas emergenciais e instrumentos de fomento e proteção que aumentem a previsibilidade da renda.

Soluções apontadas

Entre as alternativas levantadas por entidades e produtores, destacam-se:

  • ampliação da área irrigada, como forma de reduzir a vulnerabilidade climática;
  • novas linhas de crédito e incentivos fiscais para viabilizar investimentos em infraestrutura hídrica;
  • fortalecimento de mecanismos de seguro agrícola, tanto privados quanto públicos, e do programa Proagro.

O governo do estado mantém um programa que subsidia parte do custo de projetos de irrigação e de reservação de água, com subvenção de até 20% e teto de R$ 150 mil por produtor. Produtores que adotaram irrigação relatam maior previsibilidade e redução de riscos: um exemplo citado é o investimento contínuo em sistemas de irrigação desde 2012 por agricultores de regiões mais afetadas.

Entidades do setor também defendem políticas coordenadas para tornar o acesso à tecnologia e aos financiamentos mais amplos, incluindo medidas tributárias e linhas de crédito específicas para pequenas e médias propriedades, que frequentemente enfrentam maior dificuldade para modernizar a infraestrutura.

O cenário delineado no levantamento da Farsul sinaliza desafios imediatos para a política agrícola e para cadeias que dependem da produção primária, com repercussões sobre oferta, preços e emprego no interior do estado. A combinação entre eventos climáticos mais frequentes e o quadro de endividamento impõe necessidade de instrumentos que atuem tanto na mitigação de riscos climáticos quanto na recuperação da capacidade de investimento dos produtores.

Sônia Baumgarten Klein
Sônia IA Editora de Agronegócio online

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