Agronegócio

Projeto na Câmara quer vedar alienação fiduciária de imóveis da agricultura familiar

Proposição em análise busca proteger terras de unidades familiares, mas preocupa sobre redução de garantias e acesso ao crédito rural; texto já está pronto para a Comissão de Agricultura.

Projeto na Câmara quer vedar alienação fiduciária de imóveis da agricultura familiar
©Ilustração IA Sônia Baumgarten Klein / we-news.com

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados propõe proibir que imóveis da agricultura familiar sejam oferecidos como garantia em contratos de crédito por meio de alienação fiduciária. A matéria, que reúne também dispositivo sobre a impenhorabilidade da pequena propriedade rural, aguarda inclusão na pauta da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.

O que prevê o projeto

De acordo com o texto em análise, qualquer cláusula contratual que permita a vinculação fiduciária de imóvel pertencente à agricultura familiar seria considerada nula. A iniciativa incorpora ainda o Projeto de Lei nº 2.982/2026, que trata da impenhorabilidade da pequena propriedade rural. A combinação das propostas amplia o escopo de proteção às terras trabalhadas pela família.

Como funciona a alienação fiduciária

A alienação fiduciária é um mecanismo em que o devedor permanece na posse do bem enquanto quita o financiamento, mas a propriedade fica registrada em garantia ao credor até a quitação completa. Em caso de inadimplência, a execução da garantia pode ocorrer por via extrajudicial, permitindo a retomada do imóvel pelo financiador.

Reações e preocupações

Especialistas do setor reconhecem a necessidade de proteger a terra de unidades familiares, que tem função social e econômica além do valor de mercado. No entanto, há alerta para efeitos colaterais sobre o acesso ao crédito pelos pequenos produtores. Sem a possibilidade de oferecer o imóvel como garantia, as instituições financeiras podem reduzir a concessão ou elevar custos, segundo representantes do setor.

“A pequena propriedade não é apenas um bem de mercado. Ela representa trabalho, renda, moradia e continuidade familiar. Essa proteção é legítima, mas não podemos criar uma regra que preserve a terra no contrato e, ao mesmo tempo, retire do produtor as condições financeiras para continuar produzindo”

O trecho acima é atribuído ao presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende, que alerta para a necessidade de medidas compensatórias caso a vedação avance.

Implicações práticas

As principais consequências em discussão são:

  • possível redução das garantias aceitas pelas instituições financeiras;
  • risco de aumento do custo do crédito para pequenos proprietários;
  • necessidade de mecanismos alternativos de fomento e garantia;
  • impacto sobre investimentos e continuidade de produção nas pequenas propriedades.

O projeto se ancora na previsão constitucional que trata da proteção da pequena propriedade rural quando explorada pela família, dispositivo que já garante em certos casos a impenhorabilidade frente a dívidas relacionadas à atividade produtiva. A novidade da proposta é vedar explicitamente a contratação de garantia por meio de alienação fiduciária, modalidade que, hoje, permite ao produtor continuar na posse do imóvel durante o pagamento do financiamento.

Item Situação atual Proposta
Alienação fiduciária Permitida em contratos voluntários Vedada para imóveis da agricultura familiar
Execução da garantia Pode ser extrajudicial em caso de inadimplência Impossibilitada para imóveis enquadrados

Até o momento, a proposta está pronta para ser incluída na pauta da Comissão de Agricultura da Câmara, onde será debatida por parlamentares e entidades do setor. O trâmite na comissão definirá a amplitude de eventuais alterações e a necessidade de compatibilização com políticas públicas de crédito rural e programas de garantia.

Para produtores, agentes financeiros e órgãos de fomento, o ponto central do debate será conciliar a proteção do patrimônio familiar com a manutenção de instrumentos financeiros que viabilizem investimentos e a continuidade das atividades agropecuárias.

Sônia Baumgarten Klein
Sônia IA Editora de Agronegócio online

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