A indústria de insumos agrícolas no Brasil permanece em processo de ajuste, mesmo com a recente redução da taxa básica de juros e a valorização da soja. Executivos de empresas do setor apontam que a melhora nos preços e a queda da Selic ainda não se traduziram em recuperação robusta das vendas e em ampliação do crédito para produtores e distribuidores.
Contexto financeiro e estrutura de dívida
Ao final de 2025 a Selic estava em 15% ao ano e, em setembro de 2026, caiu para 13,75% ao ano. No mercado físico, a saca de soja em Paranaguá passou da faixa de R$ 130 no início do ano para cerca de R$ 162, segundo a consultoria Pátria Agronegócios. Ainda assim, participantes do setor afirmam que o acesso ao crédito permanece limitado e que o endividamento continua a pesar sobre a recuperação.
“Os recursos privados liberados pelo Plano Safra estão 20% abaixo do volume do mesmo período de 2025 e apenas 10% das linhas com juros subsidiados foram liberadas.”
O diagnóstico sobre a alavancagem do campo foi destacado por executivos. Em entrevista, o presidente da Syngenta Proteção de Cultivos no Brasil afirmou que “a dívida dos produtores chega a cerca de cinco vezes o lucro da atividade”, apontando risco sistêmico e a necessidade de alongamento e reestruturação de passivos.
Crédito, instrumentos e mercado de capitais
Representantes da indústria também criticam o fluxo de recursos voltados ao setor. Segundo a Mosaic Fertilizantes, os volumes privados liberados pelo Plano Safra mostram recuo em relação a 2025, reduzindo a capacidade imediata de expansão nas vendas de fertilizantes e outros insumos.
- Emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) caíram 50,4% no primeiro semestre, somando R$ 7,1 bilhões, conforme dados da Anbima.
- Pedidos de recuperação judicial envolvendo atividades do agronegócio totalizaram 474 no primeiro trimestre, alta de 21,9% na comparação anual, segundo a Serasa Experian.
- Executivos estimam que o ajuste dos balanços do setor pode durar entre 24 e 36 meses.
Perspectiva das empresas e implicações operacionais
Fontes do setor — incluindo operadores de empresas como Syngenta, Mosaic, Corteva, FMC, Helm e Biotrop — relatam que, apesar de margens potencialmente favorecidas pelos preços agrícolas mais altos, as vendas devem se comportar de maneira tímida no curto prazo. O foco das companhias tem sido a gestão de custos, melhoria da qualidade operacional e renegociação de carteiras com distribuidores e clientes agrícolas.
Executivos citam ainda que a liberação parcial de linhas subsidiadas e o volume menor de recursos privados implicam em menor rotação de estoques e em decisões conservadoras de compra por parte dos distribuidores. Para muitos, a recuperação do setor dependerá de uma combinação de:
- melhora contínua nos preços das commodities;
- ampliação do acesso a linhas de crédito, especialmente as subsidiadas;
- programas de reestruturação da dívida rural que deem previsibilidade a produtores.
| Indicador | Valor/variação |
|---|---|
| Selic (final de 2025) | 15% a.a. |
| Selic (set/2026) | 13,75% a.a. |
| Saca de soja (Paranaguá) | R$ 130 → R$ 162 |
| CRA (1º semestre) | -50,4% → R$ 7,1 bilhões |
| Pedidos de recuperação judicial (1º tri.) | 474 (+21,9%) |
Consequências para a safra e para a cadeia
O ajuste prolongado na indústria de insumos pode afetar a temporada seguinte, ante possíveis restrições na disponibilidade de fertilizantes, defensivos e outros produtos críticos no momento de plantio. Além do risco de redução na intensidade de aplicação por parte de produtores endividados, há risco de concentração de compras e renegociações que estendam ciclos de reposição e impactem preços sazonais.
Especialistas do setor financeiro e operacional estimam que a normalização exigirá tempo e sinergia entre políticas públicas, liberação de crédito e ajustes privados. Enquanto isso, as empresas do segmento ajustam estrutura de custos e estratégias comerciais para atravessar um período de vendas fracas, mas com atenção a oportunidades de ganho de produtividade e ganhos de eficiência.
O cenário reforça a necessidade de medidas coordenadas para sustentar a retomada do agronegócio — setor central para a economia brasileira — sem comprometer a capacidade produtiva e a segurança do abastecimento.