O fenômeno em que pessoas sentem atração romântica ou sexual por indivíduos responsáveis por crimes graves tem nome: hibristofilia. Descrito formalmente por psicólogos no século XX, o comportamento voltou a ganhar destaque com vídeos nas redes sociais que transformam criminosos em celebridades e com produções culturais que reconstroem suas histórias.
Definição e formas
O termo, de origem grega, refere-se a uma afinidade por quem comete um ultraje. Ainda que não conste como transtorno nos manuais oficiais de psiquiatria, especialistas e pesquisadores apontam duas manifestações principais do fenômeno:
- Passiva: admiração à distância, correspondência ou fantasias de redenção — por exemplo, escrever cartas, seguir o condenado nas redes sociais e acreditar que o próprio afeto pode transformá‑lo.
- Ativa ou colaborativa: quando a atração desemboca em participação direta em crimes, apoio logístico ou auxílio a fugas.
| Aspecto | Características |
|---|---|
| Passiva | Admiração, fantasias, correspondência, idealização |
| Ativa | Complicidade, apoio prático, envolvimento em crimes |
Por que isso acontece?
As explicações para a hibristofilia ainda não são unanimemente estabelecidas e o tema carece de estudos aprofundados. Entre as hipóteses discutidas estão:
- a busca por emoções intensas, com aumento de adrenalina ligado à proximidade de perigo;
- confusão entre demonstrativos de dominância e atributos desejáveis em relacionamentos;
- a construção midiática de imagens que transformam criminosos em personagens de culto, atenuando a percepção da violência real sofrida pelas vítimas.
Consequências e riscos
A hibristofilia pode ultrapassar a esfera da fantasia e produzir danos concretos. Criminosos podem manipular admiradores para obter apoio logístico, cúmplices ou mesmo favorecer fugas. Em casos notórios, funcionários ou conhecidos auxiliaram condenados por motivação afetiva; esse tipo de ligação ilustra como a atração pode criar redes de apoio que ampliam os efeitos do crime.
Do ponto de vista da vitimologia, quem se envolve com criminosos corre o risco de se tornar vítima secundária, sofrendo prejuízos emocionais, financeiros e às vezes físicos. A romantização de criminosos em filmes e nas redes sociais também tem o potencial de banalizar a violência e eclipsar as experiências das vítimas.
O papel dos meios de comunicação e da cultura
Produções culturais e conteúdos virais têm papel central na formação de narrativas que podem transformar agressores em figuras sedutoras. Quando um assassino é representado como personagem de culto, alerta‑se para o risco de reduzir a gravidade dos atos cometidos e de ofuscar quem sofreu as agressões. As mídias sociais, em particular, amplificam essas narrativas ao permitir interação direta entre condenados e admiradores.
Ainda que o tema não esteja completamente mapeado pela pesquisa científica, a existência de consequências tangíveis — desde correspondências românticas até participação em crimes — recomenda cautela na forma como a sociedade consome e reconstrói episódios de violência. Investigadores, profissionais de saúde mental e jornalistas têm, cada um a seu modo, responsabilidade para não contribuir com a glamourização do crime e para esclarecer os riscos associados à hibristofilia.
Este é um tema que exige mais estudos sistemáticos para diferenciar padrões psicológicos, sociais e culturais que o alimentam, bem como para orientar políticas de prevenção e suporte a possíveis vítimas secundárias.