Ciência

SBPC alerta que ciência e transição energética estão fora do debate eleitoral

A presidente da SBPC afirma que a campanha privilegia crises político-institucionais em detrimento de temas estratégicos como clima, saúde pública, mineração de metais críticos e envelhecimento populacional.

SBPC alerta que ciência e transição energética estão fora do debate eleitoral
©Ilustração IA Gustavo Weber Fontana / we-news.com

Brasília — A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) aponta que questões centrais para o futuro do país — entre elas ciência, transição energética, mudanças climáticas e preparação do sistema de saúde — permanecem marginalizadas na atual campanha eleitoral, dominada por denúncias e tensão político-institucional.

Prioridade política versus agenda técnica

Em declaração pública e ações como o Observatório das Eleições, a SBPC tem buscado aproximar candidaturas de propostas técnicas e de políticas públicas. A presidente da entidade ressalta que a ênfase nos embates institucionais vem empurrando para o segundo plano discussões sobre soberania tecnológica, mineração de minerais críticos e a necessidade de preparar o país para crises sanitárias futuras.

"O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda"

Segundo a SBPC, essa falsa dicotomia reduz o espaço para debates que exigem planejamento de médio e longo prazo e investimentos continuados em ciência, tecnologia e educação.

Temas levantados pela entidade

A entidade elenca prioridades que, segundo seus representantes, merecem protagonismo no debate público e na formulação de propostas eleitorais:

  • Preparação do SUS para possíveis novas pandemias;
  • Transição energética e políticas para redução de emissões;
  • Exploração e processamento de minerais críticos, como terras raras;
  • Impactos das mudanças climáticas sobre setores produtivos e populações vulneráveis;
  • Desafios do envelhecimento populacional e suas implicações para políticas sociais e mercado de trabalho.

A SBPC também destaca o papel da inteligência artificial nas transformações econômicas e sociais que marcarão a próxima década, cobrando maior atenção dos formuladores de políticas para os efeitos desta tecnologia na educação, saúde e mercado de trabalho.

Instrumentos e propostas

Para aproximar ciência e política, a SBPC estruturou o Observatório das Eleições, que reúne mais de uma centena de propostas de políticas públicas elaboradas pela comunidade científica e pela própria entidade. O objetivo declarado é oferecer aos candidatos um conjunto organizado de propostas que possam orientar programas e compromissos para o próximo governo.

Alguns eixos do Observatório das Eleições
EixoFoco
Saúde públicaPreparação para pandemias, fortalecimento do SUS
Meio ambienteAdaptação e mitigação das mudanças climáticas
TecnologiaIA, educação e inovação
Recursos naturaisMineração e processamento de minerais críticos

Os responsáveis pela iniciativa afirmam que o conjunto de propostas não busca julgar investigações em curso ou adotar posições sobre casos específicos, mas sim inserir temas técnicos e estratégicos na agenda pública e eleitoral.

Demografia e soberania

Outro alerta da SBPC é demográfico: a entidade chama atenção para a rápida transição etária da população brasileira. Em pouco mais de uma década, estima-se que o país terá um contingente de pessoas acima dos 60 anos superior ao número de indivíduos considerados em idade produtiva. Para a SBPC, esse cenário impõe decisões sobre que modelo de autonomia e soberania o Brasil pretende buscar diante das mudanças econômicas e tecnológicas.

Na visão da entidade, debater essas questões hoje é requisito para evitar déficits de políticas públicas e garantir capacidade de resposta a crises futuras, sejam elas sanitárias, climáticas ou tecnológicas.

O alerta da SBPC chega em um momento em que a opinião pública e o noticiário estão fortemente concentrados em episódios de natureza político-institucional. Para pesquisadores e gestores de ciência, essa realidade torna mais difícil assegurar a continuidade de investimentos e programas necessários para manter a capacidade científica e tecnológica do país.

Consequências: sem maior espaço na agenda eleitoral para esses temas, há risco de decisões fragmentadas e de curto prazo, dificultando políticas de longo prazo em áreas que exigem continuidade, como P&D, formação de pessoal e infraestrutura científica.

O desafio, segundo a SBPC, é integrar a defesa da integridade institucional com a construção de um projeto de desenvolvimento que coloque ciência e tecnologia no centro das políticas públicas.

Gustavo Weber Fontana
Gustavo IA Editor de Ciência online

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