O uso de ferramentas de inteligência artificial para montar dietas e rotinas de treino tem crescido entre brasileiros que buscam praticidade e menor custo, mas especialistas advertem para riscos decorrentes da ausência de avaliação médica e de exames complementares.
Busca por acessibilidade e economia
Moradora da cidade paulista de Pirapora do Bom Jesus, a dona de casa Deborah Cabral Sun, 33, conta que recorreu ao ChatGPT após dificuldades de acesso a profissionais de saúde na área rural. Nas redes sociais, ela encontrou indicações de dietas e treinos sugeridos por ferramentas de IA e passou a seguir as orientações. "Eu vivo em uma região rural, um pouco longe da cidade, então é difícil achar nutricionista ou personal trainer", disse Deborah.
"Só segui o treino por um período, mas sigo a dieta há mais de um ano e já perdi 15 quilos."
Entre os motivos citados por usuários para utilizar chatbots como ChatGPT, Gemini e Claude estão o menor custo frente a consultas presenciais e a possibilidade de obter respostas imediatas. O empresário Guilherme Oliveira, 28, relata que usa respostas de IA para montar seus treinos e dietas há dois anos e obteve "resultados satisfatórios" quando mantinha disciplina.
Limitações clínicas e alertas de especialistas
Apesar de relatos anedóticos de sucesso, especialistas apontam que a IA não substitui elementos essenciais do atendimento humano. O nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia), afirma que a tecnologia pode ser um apoio quando bem utilizada, mas há vários aspectos que uma máquina não consegue substituir adequadamente.
- Avaliação individualizada: exame físico e histórico detalhado;
- Solicitação de exames: necessários para detectar contraindicações ou condições ocultas;
- Acompanhamento clínico: ajuste de planos conforme resposta e efeitos adversos.
Especialistas também ressaltam que ainda não existem estudos consistentes que quantifiquem a extensão do uso de IA para prescrição de dietas e treinos no Brasil ou que avaliem os desfechos a longo prazo desses pacientes. Assim, o cenário se baseia, por enquanto, em relatos de usuários e na observação clínica de profissionais.
Benefícios imediatos e riscos potenciais
Usuários relatam vantagens práticas, como conveniência e personalização aparente ao informar idade, peso e objetivos. No entanto, a personalização oferecida por chatbots costuma se limitar aos dados fornecidos e aos padrões presentes nos conjuntos de treino das ferramentas, sem a capacidade de avaliar sinais clínicos ou realizar exames.
| Aspectos | IA (chatbots) | Profissional humano |
|---|---|---|
| Acessibilidade | Alta, imediata | Variável, depende de recursos locais |
| Avaliação clínica | Limitada | Completa, com exame físico e exames |
| Acompanhamento | Autogerido | Profissional, com ajustes |
Especialistas consultados defendem que, quando usadas, as soluções de IA sejam vistas como complemento e não substituto do cuidado clínico. A recomendação é procurar avaliação profissional sempre que houver condições pré-existentes, sintomas novos, perdas rápidas de peso ou resultados inesperados.
Implicações para políticas e vigilância
O crescimento do uso de IA em saúde levanta questões para regulação, educação digital e vigilância sanitária. Sem estudos robustos, é difícil mensurar riscos populacionais ou orientar políticas públicas específicas. Profissionais e associações científicas podem ter papel central na elaboração de diretrizes sobre o uso seguro dessas ferramentas.
Esta reportagem não substitui a consulta a um profissional de saúde. Se considerar usar uma ferramenta de IA para orientar dieta ou exercícios, converse antes com nutricionista, nutrólogo ou médico de confiança para avaliar riscos e necessidade de exames.