O Distrito Federal registrou um aumento expressivo nas reclamações e denúncias relacionadas a possíveis erros médicos em unidades públicas de saúde: o painel da Ouvidoria do GDF aponta que as manifestações passaram de 47, em 2025, para 64 no mesmo período de 2026 — um salto de 36,17%.
Casos recentes e investigação
O crescimento das queixas ganhou contornos graves após duas mortes de gestantes no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) ocorridas em julho. Familiares procuraram a Polícia Civil do DF reportando possíveis falhas no atendimento que antecederam as mortes. A Secretaria de Saúde informou que apura os episódios internamente.
Em um dos casos, a família relatou que o parto foi conduzido de maneira inadequada e que sinais de complicação só teriam sido identificados tardiamente. Em relatos à imprensa, o esposo de uma das vítimas descreveu a condução do trabalho de parto como problemática.
“Foi um parto normal, mal conduzido e muito forçado”.
Dados da Ouvidoria e variação por tipo de manifestação
Segundo o painel público da Ouvidoria do GDF, que consolida registros de reclamações e denúncias, a composição das manifestações no período analisado ficou assim:
- 2025 (até 7 de agosto): 47 manifestações — 34 reclamações e 13 denúncias;
- 2026 (até 7 de agosto): 64 manifestações — 56 reclamações e 8 denúncias.
Embora o total de registros tenha aumentado, observou‑se uma mudança na proporção entre reclamações e denúncias: as reclamações cresceram em número absoluto, ao passo que as denúncias formais caíram no recorte comparado.
| Ano | Reclamações | Denúncias | Total |
|---|---|---|---|
| 2025 (até 7/8) | 34 | 13 | 47 |
| 2026 (até 7/8) | 56 | 8 | 64 |
Resposta da gestão e desdobramentos
Em nota encaminhada à imprensa, a Secretaria de Saúde do DF (SES‑DF) afirmou que os números da Ouvidoria não necessariamente representam um aumento real de eventos adversos, sugerindo que alterações na formalização de queixas e maior visibilidade de casos podem influenciar as estatísticas. A SES‑DF também comunicou que apura administrativamente os relatos originados no HRSam.
Autoridades sanitárias e gestores hospitalares costumam distinguir entre manifestações (queixas registradas) e investigação de responsabilidade técnica ou criminal. No caso de Samambaia, além das apurações internas, houve o encaminhamento de informações à Polícia Civil para avaliar a ocorrência de possíveis crimes.
Impacto local e medidas práticas
O aumento das ocorrências levanta preocupações sobre protocolos de atenção obstétrica, triagem e atuação em emergências. Para a população usuária do SUS no DF, as implicações práticas são diretas: maior escrutínio sobre equipes, possíveis mudanças em fluxos de atendimento e a necessidade de comunicação clara entre profissionais de saúde e famílias.
Pacientes e familiares têm à disposição canais formais para registrar queixas e acompanhar investigações:
- Ouvidoria do GDF — plataforma para reclamações, sugestões e denúncias sobre serviços públicos;
- SES‑DF — canais institucionais para acompanhamento de ocorrências e apurações administrativas;
- Polícia Civil do DF — quando há suspeita de crime, como negligência médica que resulte em lesão grave ou morte.
Especialistas em saúde pública consultados por veículos locais costumam recomendar que pacientes busquem esclarecimento sobre procedimentos, documentem episódios e, quando necessário, acionem os canais oficiais para garantir rastreabilidade das reclamações.
Contexto mais amplo
Casos de óbitos maternos e intercorrências obstétricas têm repercussão não só local, mas nacional, porque refletem estrutura, capacitação e organização do cuidado no parto e puerpério. Ainda que a Ouvidoria não seja, por si só, um indicador de eventos adversos, o aumento das manifestações funciona como um sinal de alerta para as autoridades de saúde e para a sociedade.
O acompanhamento transparente das investigações e a divulgação de medidas corretivas serão determinantes para recompor a confiança da população nas unidades de saúde do DF.
Letícia Aranha Monteiro, correspondente no Distrito Federal.