Relatórios da Ouvidoria do Governo do Distrito Federal mostram aumento expressivo nas manifestações registradas contra a atuação de agentes das polícias Civil (PCDF) e Militar (PMDF) ao longo de 2026. Entre janeiro e meados de agosto, somaram-se 62 denúncias e reclamações relacionadas a agressões físicas e abuso de autoridade, número bem superior aos 34 registros contabilizados no mesmo período do ano anterior.
Dados por corporação e tipo de ocorrência
Os dados trazem distinções entre dois tipos de reclamações: abordagem violenta e abuso de autoridade. Na Polícia Civil, houve uma oscilação que, embora em valores absolutos menores, traduz aumento percentual no confronto com 2025. Já na Polícia Militar, os registros tiveram salto mais pronunciado, tanto em denúncias quanto em reclamações formais.
| 2025 | 2026 | |
|---|---|---|
| PCDF – abordagem violenta | 0 | 2 |
| PCDF – abuso de autoridade | 6 denúncias + 4 reclamações | 5 denúncias + 7 reclamações |
| PMDF – abordagem violenta | 5 denúncias + 4 reclamações | 10 denúncias + 12 reclamações |
| PMDF – abuso de autoridade | 15 denúncias + 10 reclamações | 23 denúncias + 17 reclamações |
Casos citados e alcance territorial
As ocorrências mencionadas no painel da Ouvidoria cobrem diferentes pontos do Distrito Federal, indicando que as críticas à conduta policial não se limitam a uma única região. Entre as situações destacadas estão episódios em Estrutural (2 de agosto), Planaltina (20 de julho), Ceilândia (22 de maio) e São Sebastião (3 de maio). Os relatos variam de agressões físicas — incluindo acusações de arrastamento de cabelos e queda ao chão — a contestações sobre uso excessivo de força em abordagens por perturbação do sossego.
Um caso de forte repercussão foi a condenação do policial civil Gustavo Gonçalves Suppa pela agressão ao publicitário Diego Torres em uma abordagem na Asa Norte, no ano anterior. A decisão judicial reacendeu discussões sobre o padrão de atuação das forças e a efetividade dos mecanismos de controle interno e externo.
Resposta institucional
A Polícia Civil informou que todas as manifestações relativas à conduta de seus agentes são "analisadas e devidamente apuradas". A declaração reforça o compromisso formal com a investigação dos fatos, ainda que a Ouvidoria aponte crescimento nas reclamações.
"analisadas e devidamente apuradas"
Representantes da PMDF não detalharam, no painel público, as medidas administrativas adotadas caso a caso. A Ouvidoria do GDF é o canal por onde as vítimas e testemunhas formalizam queixas, e seus registros servem como base para providências internas e para encaminhamentos ao Ministério Público ou à Corregedoria quando necessário.
Consequências para a confiança e a rotina do cidadão
O crescimento das queixas pode refletir uma combinação de fatores: maior disposição de vítimas em registrar denúncias, maior visibilidade de casos emblemáticos e, possivelmente, mudança no comportamento de parte dos agentes. Para moradores das áreas citadas, episódios de truculência afetam a percepção de segurança e a relação cotidiana com a polícia, sobretudo quando as ocorrências envolvem abordagens em locais públicos ou em operações de fiscalização de ruído.
- Impacto direto: vítimas sofrem danos físicos e psicológicos, além de eventuais custos legais.
- Impacto institucional: aumento da pressão por investigação e por medidas disciplinares ou legais.
- Impacto comunitário: erosão da confiança entre população e forças de segurança, dificultando cooperação em investigações.
Próximos passos e orientações
A Ouvidoria do GDF continua recebendo registros e encaminhando apurações. Para quem sofrer ou testemunhar condutas inadequadas de agentes, é recomendável formalizar a queixa na própria ouvidoria, preservar provas (fotos, vídeos e contatos de testemunhas) e buscar orientação jurídica. Casos graves podem ser levados ao Ministério Público ou ao Núcleo de Pronto Atendimento Jurídico das Defensorias.
À medida que os dados completos do ano forem consolidados, autoridades locais e organismos de controle terão elementos para avaliar tendências e eventual necessidade de reforço em treinamento, protocolos de abordagem e supervisão disciplinar. O aumento das manifestações torna mais urgente o aperfeiçoamento dos mecanismos de transparência e de responsabilização, visando restabelecer a confiança da população no trabalho das polícias do Distrito Federal.
Letícia Aranha Monteiro, Correspondente no Distrito Federal