Dezenas de enfermeiros do Hospital Amadora-Sintra entregaram no final de julho à administração do estabelecimento de saúde uma declaração de escusa de responsabilidade, alegando que as condições de funcionamento do serviço de Urgência Geral não permitem prestar cuidados seguros e adequados aos utentes.
O documento, a que a Lusa teve acesso, descreve uma situação de sobrelotação diária na área ambulatória, com permanências prolongadas de doentes, insuficiência de dotações médicas e carência de recursos de enfermagem. Em declarações à Lusa, um profissional daquele serviço disse que os tempos de espera elevados se têm agravado desde que o serviço ficou sem direção clínica, no final de fevereiro.
Tempos de espera e picos de afluência
Segundo a declaração entregue em julho, os tempos de espera nele registados já eram alarmantes: 12 horas para doentes muito urgentes e 38 horas para doentes urgentes. No início deste mês, a média subiu para 18 horas para utentes urgentes, com um pico de 10 horas para doentes classificados como muito urgentes — casos que, segundo as normas, deveriam ser observados em 10 minutos.
| Período | Doentes muito urgentes | Doentes urgentes |
|---|---|---|
| Julho (declaração) | 12 horas | 38 horas |
| Início do mês | pico de 10 horas (média 18 para urgentes) | média 18 horas; pico de 26 horas registado depois |
O mesmo profissional referiu que, no início desta semana, a espera chegou às 26 horas para doentes urgentes — que deveriam ser observados em até uma hora — e que os muito urgentes chegaram a esperar quatro horas em picos de afluência. Numa das tardes recentes, o pico obrigou a registar mais de 200 doentes inscritos na Urgência para observação clínica.
Impacto nos cuidados e capacidade reduzida
A escassez de enfermeiros já forçou a administração a reduzir a capacidade de internamento na urgência, que passou a dispor de 18 camas a menos. Os profissionais alertam para o efeito dessas condições na avaliação clínica: com tempos de espera tão prolongados, «qualquer doente que não seja urgente pode passar a sê-lo», sublinha um enfermeiro ouvido pela agência.
«Com tanto tempo de espera, qualquer doente que não seja urgente pode passar a sê-lo»
Os enfermeiros destacam ainda que os utentes que aguardam nas urgências necessitam não só de cuidados médicos, mas também de cuidados de enfermagem — cuidados esses que ficam comprometidos pela sobrelotação e pela ausência de dotações seguras.
- Falta de direção clínica desde o final de fevereiro apontada como fator agravante;
- Redução de camas na urgência devido à falta de pessoal de enfermagem;
- Picos de afluência que sobrecarregam profissionais e atrasam avaliações clínicas.
Fonte ouvida pela Lusa reconheceu o esforço do conselho de administração no sentido de contratar mais enfermeiros, mas considerou que a maior dificuldade tem sido «gerir o barco» sem direção clínica. A situação descrita preocupa profissionais e tem consequências imediatas para a população de Sintra e concelhos limítrofes que procuram o serviço de urgência do hospital.
Na cidade, pacientes e famílias consultadas nas imediações do hospital afirmam sentir ansiedade e frustração face a longas esperas, enquanto profissionais de saúde referem desgaste e risco acrescido de falhas na assistência por causa da sobrecarga constante. A entrega das declarações de escusa de responsabilidade formaliza o descontentamento e coloca novas questões sobre a capacidade do sistema local em responder a episódios agudos de procura.
Perante este quadro, resta saber que medidas concretas a administração hospitalar e as autoridades de saúde promoverão para reduzir tempos de espera, repor dotações de pessoal e retomar a direção clínica do serviço — elementos que os profissionais apontam como essenciais para restaurar condições seguras de atendimento no Hospital Amadora-Sintra.