A transformação da Península de Setúbal em uma região estatística autónoma (NUTS II) deixou de ser uma mera curiosidade técnica para se tornar, nas palavras dos analistas, numa janela de oportunidade que poderá alterar o destino económico da área. Em Setúbal, cidade com forte raiz industrial e função logística relevante, a notícia chegou com uma mistura de expetativa e cautela: a alteração estatística cria potencial de acesso a fundos e políticas diferenciadas, mas não garante, por si só, a inversão de décadas de perda relativa de riqueza.
Dados que explicam a preocupação
Os números trazem o argumento mais contundente. Apesar de a Península de Setúbal responder por mais de 5% da atividade económica nacional, o território tem vindo a perder posição relativa ao resto do país nas últimas décadas. Em 1995, o PIB per capita da região correspondia a cerca de 82% da média nacional; em 2023 esse valor caiu para 68%, tornando a Península de Setúbal a NUTS II com o menor PIB per capita do país.
| Ano | PIB per capita (% da média nacional) |
|---|---|
| 1995 | 82% |
| 2023 | 68% |
Entre as regiões portuguesas, apenas a Península de Setúbal e o Oeste e Vale do Tejo divergiram da média nacional ao longo dos últimos 30 anos. O facto torna obrigatório um exame tranquilo, mas vigoroso, sobre o que mudou e sobre aquilo que é preciso resolver para devolver dinamismo económico à região.
Potencial e paradoxo: indústria, porto e logística
O território reúne ativos que, em teoria, deveriam favorecer uma convergência positiva: acolhe algumas das maiores empresas industriais do país, um porto estratégico, centros logísticos e uma longa tradição industrial, para além de uma localização próxima da Área Metropolitana de Lisboa. Ainda assim, esses elementos não têm sido suficientes para impedir um processo de empobrecimento relativo, sinal de que os desafios são estruturais e multifacetados.
A nova configuração estatística permite que a Península de Setúbal seja analisada de forma autónoma para efeitos de política de coesão e de atribuição de fundos europeus. Isso significa, na prática, uma possibilidade acrescida de eligibilidade para programas e investimentos que antes eram avaliados no quadro mais alargado onde a região estava integrada. Mas, como sublinham economistas, a elegibilidade é condição necessária, não suficiente: fará falta uma estratégia clara e concertada para transformar recursos em desenvolvimento sustentável.
«A alteração estatística abre uma oportunidade para alterar o posicionamento económico de toda a Península de Setúbal», diz o comentário público sobre a mudança.
O que é preciso para aproveitar a oportunidade
Se a NUTS II oferece potencial, o ganho efetivo dependerá de opções políticas e de articulação entre atores locais, nacionais e europeus. Entre os desafios identificados estão:
- Definição de uma estratégia regional coordenada que privilegie projetos de maior impacto estrutural;
- Mobilização de capacidades locais para apresentar candidaturas qualificadas a fundos de coesão;
- Articulação dos polos industriais, logísticos e portuários com políticas de inovação e formação profissional.
Sem estas medidas, advertem analistas, a alteração estatística pode ficar reduzida a uma mudança nominal, e a Península de Setúbal arrisca perder mais uma oportunidade para inverter tendências que se acentuaram nas últimas décadas. Ao contrário, se as decisões praticadas valorizarem os pontos fortes do território e atacarem fragilidades estruturais, a NUTS II pode ser o ponto de partida para uma trajetória de convergência económica.
Em Setúbal, a expectativa entre agentes económicos e comunitários é grande. A cidade e a península circundante dispõem de recursos e localização competitiva; a questão agora é transformar esse potencial em projetos, candidaturas e políticas que tenham efeitos mensuráveis no emprego, nos rendimentos e na dinâmica empresarial.
O tempo para discutir pormenores já passou. A transformação exigirá decisões práticas e concertadas: aproveita-se a oportunidade ou deixa‑se passar. Para os residentes de Setúbal, a escolha definirá, nas próximas décadas, parte substancial do seu enquadramento económico e social.