Um relatório da Inspeção‑Geral das Atividades em Saúde (IGAS) sobre a organização do trabalho no serviço de urgência de Ginecologia e Obstetrícia da Unidade Local de Saúde (ULS) Almada‑Seixal concluiu que o planeamento do serviço entre 13 de abril e 4 de maio de 2025 «não foi feito de modo adequado», revelando «fragilidades estruturais e operacionais no funcionamento do serviço».
Dados da inspeção e impacto nos utentes
Segundo o relatório consultado pela Lusa e a que este jornal teve acesso, naquele período registou‑se um número elevado de admissões urgentes — 64% do total —, mas mais de metade das utentes foram encaminhadas, após a observação, para os cuidados de saúde primários. A IGAS destaca também que, em média, 36% das utentes triadas na urgência foram classificadas como não urgentes.
- Período analisado: 13 de abril a 4 de maio de 2025;
- Admissões urgentes: 64%;
- Encaminhadas para cuidados primários após episódio de urgência: mais de 50%;
- Triadas como não urgentes na urgência: média de 36%.
A IGAS questiona «se não deveriam ter recorrido inicialmente aos cuidados de saúde primários», face à limitada capacidade de resposta do serviço de urgência, e sublinha que a informação recolhida levanta dúvidas sobre o padrão de utilização do serviço por parte de algumas utentes.
Organização regional e alterações recentes
As urgências de Ginecologia e Obstetrícia na margem sul sofreram uma reorganização este ano. A 15 de abril entrou em funcionamento uma urgência regional na Península de Setúbal com funcionamento centralizado em dois polos: o Hospital Garcia de Orta, em Almada — hospital‑sede da urgência regional — e o Hospital de São Bernardo, em Setúbal, que assegura o atendimento para a sua área de influência.
O relatório da IGAS coloca este ajuste organizativo no contexto das fragilidades observadas, frisando que, no período em análise, o serviço de Ginecologia e Obstetrícia da ULS Almada‑Seixal esteve encerrado em mais de 60% dos dias, com a atividade clinicamente assegurada por prestadores de serviço e médicos internos devido à escassez de especialistas.
«O serviço precisava de uma intervenção urgente e estruturada», refere a IGAS, que aponta igualmente a dependência de tarefeiros e uma equipa de pessoal fragilizada.
Problemas de gestão e risco para continuidade assistencial
A inspeção identifica fatores organizacionais que agravaram a situação: a ausência de diretor de serviço e a sobrecarga da diretora clínica na organização das escalas são assinaladas como contributos para a descoordenação. A IGAS chama a atenção para o risco colocado à «continuidade e qualidade da resposta assistencial» por um quadro de pessoal fragilizado.
| Item | Valor |
|---|---|
| Período analisado | 13/04/2025 — 04/05/2025 |
| Admissões urgentes | 64% |
| Triadas como não urgentes | 36% (média) |
| Dias em que o serviço esteve encerrado | Mais de 60% |
Para a população de Seixal, integrando a área da ULS Almada‑Seixal, as consequências práticas traduzem‑se em menor previsibilidade no acesso à urgência hospitalar especializada e em maior probabilidade de verem o seu episódio resolvido por referenciação aos cuidados primários. A reorganização regional visou precisamente minimizar constrangimentos e garantir maior segurança e previsibilidade, mas a IGAS entende que, no período estudado, as fragilidades internas comprometeram esse objetivo.
Consequências e recomendações
A IGAS conclui pela necessidade de uma intervenção «urgente e estruturada» no serviço, apontando para a indispensabilidade de reforço de recursos humanos especializados, estabilização de carreiras e clarificação de funções de direção. O relatório denuncia ainda a dependência de prestadores externos (tarefeiros) para suprir falhas permanentes no quadro clínico.
Na prática, qualquer alteração nas escalas, contratação de especialistas ou medidas administrativas que venham a ser adotadas terão reflexo direto na oferta de cuidados para utentes residentes em Seixal e concelhos limítrofes. Fontes institucionais consultadas durante a preparação deste texto não acrescentaram novos números nem planos concretos de intervenção para além do que consta do relatório da IGAS.
O documento da Inspeção surge numa altura em que a região procura garantir a sustentabilidade das urgências especializadas, após a centralização em polos, e coloca pressão sobre as autoridades de saúde locais e regionais para atuarem de forma célere e coordenada.
Os próximos passos dependem, segundo o próprio relatório, de uma resposta estruturada por parte da administração da ULS Almada‑Seixal e das entidades regionais de saúde para garantir a continuidade e qualidade dos cuidados à população que utiliza o serviço de Ginecologia e Obstetrícia.