Uma ação de propaganda de extrema-direita protagonizada numa mesquita em Ourém, divulgada nas redes sociais, motivou esta quinta-feira críticas por parte do patriarca católico de Lisboa e da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), que consideraram o episódio uma profanação de um templo religioso e formalizaram uma participação às autoridades competentes.
Reacções institucionais
O patriarca de Lisboa, Rui Valério — natural do concelho de Ourém e presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, com a pasta do diálogo inter-religioso — classificou a ação como inadmissível. Segundo o responsável, a reação da Igreja foi «unânime» e ancorada «na mensagem do Evangelho» e na «doutrina social da Igreja», especialmente na dimensão do diálogo entre confissões.
«A nossa reação é uma reação unânime que está radicada seja na mensagem do Evangelho, ou seja, na doutrina social da Igreja, nomeadamente na sua dimensão de relação inter-religiosa».
Rui Valério explicou ainda quais os aspetos que o incomodaram na ação: «Em primeiro lugar, foi uma invasão abusiva»; em segundo, «o que para mim foi verdadeiramente confrangedor e merece o nome de profanação, foi usar-se aquele espaço sagrado para fazer publicidade a um livro».
A resposta da Comunidade Islâmica
A Comunidade Islâmica de Lisboa recordou, num comunicado, que uma sala de oração ou um muçulmano a rezar «não constituem uma ameaça» e que quaisquer dúvidas sobre a utilização de um espaço devem ser tratadas pelas entidades competentes, não podendo «servir de pretexto para provocar, humilhar ou criar hostilidade contra uma comunidade religiosa».
Face à divulgação e às declarações ocorridas no espaço de oração em Ourém, a CIL «apresentou formalmente uma participação junto das entidades competentes», conforme a mesma nota, procurando com isso que o caso seja investigado pelos órgãos com competência para tal.
Contacto e solidariedade
Na sequência do incidente, Rui Valério contactou a direção da mesquita invadida, manifestando solidariedade tanto a título pessoal como institucional. O gesto reforça a posição pública da hierarquia católica em defesa do respeito pelos locais de culto e pelo princípio de não instrumentalização do sagrado.
- Quem reagiu: patriarca de Lisboa (Rui Valério) e Comunidade Islâmica de Lisboa.
- Ação tomada: participação formal às entidades competentes pela CIL; contacto e solidariedade do patriarca com a direção da mesquita.
- Motivos de crítica: invasão do espaço, divulgação nas redes sociais e uso do templo para publicidade.
| Entidade | Resposta |
|---|---|
| Patriarca de Lisboa (Rui Valério) | Condenação pública; contacto e solidariedade à direção da mesquita |
| Comunidade Islâmica de Lisboa | Participação formal às entidades competentes; pedido de respeito pelo espaço de oração |
O episódio abre um conjunto de questões que interessam directamente aos habitantes de Ourém: o respeito pela liberdade religiosa, os limites da actuação de grupos de propaganda em espaços de culto e a forma como as autoridades competentes irão tratar a participação apresentada pela Comunidade Islâmica de Lisboa.
Enquanto corresponsal com presença local, registo a expectativa da comunidade muçulmana e de representantes institucionais quanto ao desenrolar das investigações e ao esclarecimento público dos factos. A divulgação nas redes sociais tornou o caso visível para um público alargado, elevando a responsabilidade das autoridades na resposta e na prevenção de novos incidentes que possam deteriorar o convívio entre comunidades em Ourém.
O episódio vem também sublinhar a importância do diálogo inter-religioso na região e a prontidão de líderes locais e nacionais em condenar ações que violem a sacralidade dos espaços de culto. Resta agora aguardar os desdobramentos formais da participação apresentada e a eventual atuação das entidades com competência para investigar e, se for caso disso, sancionar os responsáveis.