Lisboa recebe nos dias 11 e 12 de setembro a montagem Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem, peça centrada na obra do escritor Manuel António Pina (1943–2012) e que terá lugar no Centro Cultural de Belém (CCB). A produção, apresentada pela primeira vez em março no Teatro Nacional São João, já passou por Faro e Aveiro antes de subir ao palco da capital.
Um projecto que alargou o foco inicial
O desafio para montar um texto de Manuel António Pina foi lançado pelo Teatro Nacional São João a Victor Hugo Pontes ainda antes deste assumir a direção artística daquela sala. O projecto inicial visava uma encenação direccionada para a infância, mas, como explicou o encenador, acabou por crescer: tornou‑se uma colagem que integra peças de teatro, poesia e crónicas do autor.
Com dramaturgia da responsabilidade de Victor Hugo Pontes e Jacinto Lucas Pires, a peça organiza‑se como uma selecção de excertos da escrita de Pina, reunidos e encadeados numa narrativa maior. «Acabei por ler quase toda a obra do Manuel António Pina, as entrevistas que ele deu também. E desse material todo, fui fazendo seleções de coisas que me interessavam», afirmou o encenador sobre o processo de trabalho.
Estrutura e tema
A montagem utiliza como estrutura central «A História do Sábio Fechado na sua Biblioteca», onde se encaixam outras narrativas, canções, poemas e crónicas. Segundo Victor Hugo Pontes, a obra de Manuel António Pina «centra‑se muito nesta ideia da vida, da morte e do amor», não apenas enquanto conceito de morte física, mas como a perda de um estado de inocência — a «hora do espanto» a que o autor recorria.
«Há uma frase que ele diz, que nós usamos no espetáculo: ‘às vezes pergunto‑me que pessoa teria sido eu se em vez de ter lido os livros que li tivesse lido antes os que não li’»
O elenco inclui o actor Jorge Mota, que interpreta o sábio, e outros elementos nomeados na ficha artística: Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes e Daniel Teixeira Pinto. O formato de «colagem» pretende, nas palavras do encenador, «juntar todos os pedaços dos livros e desimaginar o mundo», procurando encontrar beleza no erro e na falha.
- Encenação: Victor Hugo Pontes
- Dramaturgia: Victor Hugo Pontes e Jacinto Lucas Pires
- Base: textos de Manuel António Pina (peças, poesia e crónicas)
- Elenco: Jorge Mota, Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto
- Local: Centro Cultural de Belém (CCB), Lisboa — 11 e 12 de setembro
Percurso e recepção
A peça estreou no Porto em março e, posteriormente, foi apresentada em Faro e Aveiro. A passagem por estas cidades antecede a chegada a Lisboa, integrando um percurso que alia as componentes cénicas e literárias do autor a uma abordagem de montagem contemporânea. No anúncio da temporada, a direcção artística e os produtores destacaram a dimensão transversal do projecto e a intenção de aproximar diversas gerações ao universo de Pina.
| Local | Observações |
|---|---|
| Porto | Estreio em março |
| Faro | Passagem posterior |
| Aveiro | Passagem posterior |
| Lisboa (CCB) | 11 e 12 de setembro — apresentação na capital |
Para a comunidade cultural de Lisboa, a entrada da peça no CCB representa a oportunidade de revisitar a obra de um autor reconhecido no panorama literário português através de uma leitura cénica plural e renovada. A natureza híbrida da montagem — que cruza géneros e formatos — pode também favorecer o encontro entre públicos distintos: desde leitores consolidados de Manuel António Pina a espectadores que procuram experiências cénicas contemporâneas na cidade.
Na programação cultural lisboeta, eventos deste tipo reforçam a centralidade do CCB como palco para propostas que misturam literatura e teatro. A presença da peça na capital permitirá ainda observar a recepção do público lisboeta e o diálogo entre uma dramaturgia de colagem e a herança literária do autor.
O espectáculo «Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem» apresenta‑se como uma proposta para revisitar a escrita de Manuel António Pina em palco, numa montagem que privilegia a selecção ética e estética de fragmentos, e que chega a Lisboa com uma estrutura pensada para provocar reflexão sobre leitura, memória e pequeno quotidiano.