Em Palmela e nas freguesias do concelho instala-se um luto discreto mas sentido: Hélder Máximo Esdras Martins, investigador e colecionador de brinquedos natural de Pinhal Novo, faleceu recentemente. A Câmara Municipal aprovou um Voto de Pesar que reconhece a importância do seu trabalho para a valorização do brinquedo tradicional enquanto expressão do património cultural.
Nas palavras de quem participou nas mostras organizadas no concelho, a presença de Hélder Martins traduzia-se numa cruzada pela preservação de memórias comuns. A ligação ao território materializou‑se numa itinerância de conteúdos entre 2015 e 2016, quando uma exposição de brinquedos portugueses percorreu vários equipamentos municipais, aproximando coleções e contexto comunitário.
Trajetória profissional e científica
Nascido em 1953 e natural de Pinhal Novo, Hélder Martins foi formado no Colégio Militar e licenciou‑se em áreas da Saúde e da Antropologia. Ao longo da carreira profissional, desempenhou funções nos hospitais do Barreiro e do Montijo. Contudo, foi o estudo do brinquedo — como objecto social, económico e cultural — que ocupou grande parte da sua actividade investigadora.
Iniciou a recolha e a investigação aos 16 anos e, durante várias décadas, reuniu uma colecção estimada em cerca de 10 mil peças, com exemplares que remontavam ao século XIX. O seu trabalho deu origem a teses, exposições e a acções de divulgação em Portugal e no estrangeiro, numa prática que procurou ligar investigação académica, museografia e pedagogia comunitária.
- Início da recolha: aos 16 anos
- Dimensão da colecção: cerca de 10 000 peças
- Exposições no concelho: 2015–2016, em equipamentos municipais
- Colaborações: Instituto Politécnico de Setúbal
Investigação, reconhecimento e parcerias
Uma parte relevante da investigação de Hélder Martins abordou a utilização de materiais locais e resíduos industriais na construção de brinquedos, nomeadamente a influência da indústria conserveira e o recurso a sobras de folha da Flandres. Esse ângulo permitiu estabelecer ligações entre economia local, práticas artesanais e formas de brincar, contribuindo para um quadro interpretativo que valorizava o carácter vernacular do objecto.
O trabalho foi reconhecido além‑fronteiras: em 2021, em França, recebeu o prémio internacional «Juer La Culture Dans Le Monde» com o projecto intitulado «Cultura no e do brincar». A distinção sublinha a dimensão transnacional do seu esforço para colocar o brinquedo tradicional no mapa das práticas culturais dignas de estudo e preservação.
«Cultura no e do brincar»
Além da produção científica e das exposições, Hélder Martins empenhou‑se em iniciativas de sensibilização da comunidade, procurando recolher espólio local e fomentar a educação patrimonial. No concelho de Palmela, essas iniciativas permitiram envolver escolas, associações e espaços culturais, aproximando gerações em torno da memória material.
Impacto local e próximos passos
O Voto de Pesar aprovado pela Câmara Municipal é, para muitos, um reconhecimento institucional de um percurso que ultrapassa a dimensão individual. Para residentes de Pinhal Novo e outros pontos de Palmela, a colecção e as mostras promovidas representaram também uma oportunidade para recuperar memórias familiares e ofícios regionais.
Fica a interrogação sobre o destino do acervo e das investigações reunidas ao longo de décadas. Fontes locais indicam que parte do trabalho já havia sido integrado em actividades do concelho — nomeadamente pelas exposições promovidas em 2015/2016 — mas não foram divulgadas informações detalhadas sobre a guarda futura das cerca de 10 mil peças.
Na prática de campo, ouvimos moradores de Pinhal Novo referir que Hélder Martins era figura presente em iniciativas culturais e educativas. Para muitos, a sua ausência cria a necessidade de reforçar políticas locais de preservação do património imaterial e material ligado ao brincar, de modo a garantir que as colecções e o conhecimento acumulado permaneçam acessíveis à comunidade.
| Factos | Dados |
|---|---|
| Ano de nascimento | 1953 |
| Origem | Pinhal Novo (concelho de Palmela) |
| Dimensão da colecção | ~10 000 peças |
| Instituições associadas | Hospitais do Barreiro e Montijo; Instituto Politécnico de Setúbal; equipamentos municipais de Palmela |
A Câmara Municipal aprovou formalmente a nota de pesar, gesto que muitos cidadãos interpretam como um apontamento institucional para a necessidade de continuar o trabalho de salvaguarda. Em Palmela, as memórias do brincar — e as peças que as materializam — passam agora a integrar a herança deixada por um investigador que dedicou a vida a escutar aquilo que os brinquedos dizem sobre comunidades, trabalho e identidade.