Em Famões, no concelho de Odivelas, abre portas a 14 de setembro a nova Nãm Fungi Factory, a terceira quinta urbana do projeto NÃM Mushrooms, resultado de uma parceria com a Delta Cafés e o Grupo Nabeiro. A iniciativa, que já teve operações em Marvila (Lisboa) e no mercado de Cascais, pretende reforçar a produção de cogumelos comestíveis e o aproveitamento das borras de café como matéria‑prima numa lógica de economia circular.
Economia circular aplicada em contexto urbano
O conceito da NÃM nasce da observação de que as borras de café — subproduto ubiquamente gerado em cafetarias, restaurantes e residências — podem ter uma nova vida. A partir da máxima científica de Antoine Lavoisier, «na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma», o processo transforma borras em substrato para cultivo de Pleurotus ostreatus (cogumelos Ostra) e em fertilizante orgânico para uso agrícola.
A tecnologia utilizada dispensa uma quinta tradicional: o ciclo de produção decorre em ambiente urbano, dentro de contentores, com um processo que dura cerca de seis semanas. Inicialmente o micélio desenvolve‑se em sacos suspensos; na fase seguinte, a produção passa para prateleiras verticais, otimizando o uso do espaço.
Escala e impacto produtivo
Desde a origem no projeto de Natan Jacquemin — empreendedor de origem belga que estudou Gestão e Economia na Universidade Católica e na Católica Lisbon School of Business & Economics — a NÃM cresceu progressivamente. A parceria com a Delta Cafés e a aceleração pela Delta Venture permitiram saltos importantes em dimensão e capacidade de transformação.
| Local | Capacidade anual (cogumelos) | Borras de café reutilizadas (equivalente anual) |
|---|---|---|
| Instalação inicial (cave, Intendente) | c. 1 200 kg/ano | c. 1 200 kg (mensal: 500 kg → anual estimado) |
| Marvila (primeira quinta urbana) | até 30 toneladas/ano | c. 100 toneladas/ano |
| Nova unidade — Famões, Odivelas | em expansão (Nãm Fungi Factory) | incremento da capacidade regional |
Os números divulgados pela NÃM indicam que a capacidade aumentou ao ponto de a operação de Marvila atingir cerca de 30 toneladas anuais de cogumelos, correspondendo à reutilização de aproximadamente 100 toneladas de borras de café por ano. A nova unidade em Famões acrescenta escala e distribui a produção por canais de restauração, lojas e grande distribuição.
Organização do fluxo urbano de resíduos
O modelo da NÃM implica a recolha regular de borras junto de parceiros locais de café e restauração. Em termos práticos, isso representa uma alternativa ao encaminhamento desses resíduos para aterro ou incineração e propõe‑se como contributo para a gestão urbana de resíduos orgânicos em Odivelas.
- Transformação de borras de café em alimento humano (cogumelos) e fertilizante;
- Processo ocupando espaços urbanos (contentores, prateleiras verticais) e reduzindo a pegada de transporte;
- Venda dos produtos a restauração, retalho e grande distribuição.
A chegada da Nãm Fungi Factory também suscita questões sobre a integração desta atividade na rotina da cidade: logística de recolha de borras, impacto no emprego local, oportunidade de formação técnica e potenciais parcerias com hortas urbanas e projetos agrícolas no concelho.
«O que sobra da “bica” não termina na última gota: transforma‑se em recurso»,
resume a filosofia do projeto, que começou em 2018 numa cave no Intendente e escalou a partir de uma parceria com um operador nacional do setor do café.
Para Odivelas, a presença de uma unidade deste tipo representa um reforço das iniciativas locais de economia circular e uma possibilidade de diversificar a atividade económica no território. A operacionalização prática nos próximos meses — em particular os acordos com estabelecimentos cafés/restauração de Odivelas e a integração de produtos NÃM nos circuitos de venda locais — será determinante para avaliar o impacto efetivo na cidade.
As portas da Nãm Fungi Factory abrem a 14 de setembro, numa data que marcará o início de uma nova fase do projeto, agora com forte presença no território de Odivelas.