Os oceanos mantêm-se em níveis de calor sem precedentes há mais de 100 dias, segundo dados da agência climática norte-americana (NOAA), que registou uma sequência de máximos diários da temperatura média global da superfície do mar desde 2 de junho.
Dados e contexto
Em 10 de setembro, a estimativa preliminar da temperatura global da superfície do mar, excluindo as regiões polares, situou‑se em 21,15°C, valor superior ao observado na mesma data de 2015, um ano marcado por um forte El Niño, quando a temperatura foi de 20,72°C. Em termos comparativos de longo prazo, os oceanos estão quase 1°C mais quentes — uma anomalia de 0,94°C face à média de 1982-2010 para esta época do ano.
Causas e mecanismos
Os especialistas apontam para duas causas principais: a intensificação do fenómeno El Niño, que começou em junho, e o contributo contínuo das emissões de gases com efeito de estufa. Os oceanos absorvem uma parte substancial das emissões e do calor acumulado no sistema climático — cerca de 30% das emissões e 90% do excesso de calor, segundo as avaliações científicas citadas.
«A temperatura da superfície do mar permanecer excepcionalmente alta por tanto tempo é um sinal muito importante do desequilíbrio energético do planeta», afirmou Marina Correa, bióloga e especialista em conservação oceânica do WWF‑Brasil.
O prolongamento deste período de calor extremo traduz‑se numa alteração do que os cientistas designam por «clima marinho»: um novo patamar térmico que tem vindo a estabilizar‑se nas últimas décadas.
Impactos sobre ecossistemas e atividades humanas
O aquecimento sustentado da superfície marinha pode provocar efeitos diretos e indiretos em múltiplas escalas:
- estruturas de ecossistemas marinhos e costeiros, através do aumento de eventos de stress térmico e branqueamento de corais;
- alterações na produtividade biológica e nas cadeias alimentares, com implicações para a pesca e segurança alimentar;
- mais eventos meteorológicos extremos, dado o papel dos oceanos na modulação do clima global;
- redução do tempo de recuperação para espécies afetadas por múltiplos episódios consecutivos de calor.
A investigadora Claire Bergin, da Universidade de Maynooth, sublinha a vulnerabilidade intrínseca da vida marinha: «Aumentar 1°C na temperatura do mar pode ter um efeito significativo sobre a biodiversidade. Em terra, podemos instalar ar‑condicionado para nos refrescar, mas a adaptação dos mares e da vida marinha não é tão simples e é extremamente limitada.»
O que significam os números: tabela de comparação
| Data/Referência | Temperatura (°C) |
|---|---|
| 10 de setembro de 2026 (estimativa NOAA) | 21,15 |
| 10 de setembro de 2015 (El Niño forte) | 20,72 |
| Anomalia relativa à média 1982‑2010 | +0,94°C |
Consequências para Portugal e próximos passos
Embora os valores apresentados sejam globais, as alterações das temperaturas oceânicas têm efeitos regionais que podem influenciar correntes, padrões de precipitação e a frequência de fenómenos extremos nas latitudes portuguesas e no Atlântico Nordeste. O aumento da temperatura da superfície marinha também pressiona recursos pesqueiros e habitats costeiros, questões centrais para a gestão do território e das comunidades marítimas.
Os dados da NOAA reforçam a necessidade de políticas de mitigação das emissões e de estratégias de adaptação integradas, que incluam monitorização contínua, gestão pesqueira adaptativa e medidas de conservação de habitats sensíveis. A persistência do calor oceânico destaca igualmente a urgência de reduzir a pegada carbónica para limitar novos agravamentos.
Em resumo: os oceanos continuam a registar temperaturas da superfície inéditas, resultado da combinação de um forte El Niño e do aquecimento global provocado pelas emissões humanas, com consequências ambientais e socioeconómicas que exigem monitorização e respostas políticas coordenadas.