Sociedade

Impasse no Conselho para a Ação Climática reacende debate sobre paridade e democracia participativa

O atraso na constituição do Conselho para a Ação Climática provocou reação de sociedade civil e partidos, com propostas divergentes sobre a exigência de paridade e formas de desbloquear o órgão previsto na Lei de Bases do Clima.

Impasse no Conselho para a Ação Climática reacende debate sobre paridade e democracia participativa
©Ilustração Inês Salgueiro / we-news.com

O impasse na constituição do Conselho para a Ação Climática (CAC) voltou a colocar na agenda pública uma questão que mistura política, técnica e democracia: como conciliar a necessidade de operacionalizar um órgão consultivo previsto na Lei de Bases do Clima com a exigência legal de paridade de género na sua composição.

O ponto de partida

No início do verão, uma notícia do jornal PT Green revelou que o PSD preparava uma alteração à lei com o objetivo de desbloquear a constituição do CAC, alegando dificuldades em assegurar a composição prevista, em particular o cumprimento da paridade entre homens e mulheres. A proposta do PSD permitiria que o Conselho fosse constituído e funcionasse mesmo quando a paridade não pudesse ser integralmente atingida.

Reação da sociedade civil e especialistas

A divulgação da intenção do PSD suscitou rápida e intensa reação. Um grupo de mais de 20 especialistas nas áreas do clima e da sustentabilidade constituiu o movimento «Paridade de Género para o CAC», manifestando-se contra a proposta de alteração. Os subscritores consideram que a alegada dificuldade em assegurar a paridade «nunca foi demonstrada de forma objetiva» e defendem que há um número significativo de mulheres qualificadas nos domínios relevantes — clima, ambiente, energia, economia, direito e ciência — que podem integrar o órgão.

«a alegada dificuldade em assegurar a paridade nunca foi demonstrada de forma objetiva, nem resulta da inexistência de mulheres qualificadas»

Alternativas e posicionamentos partidários

Perante a contestação, os partidos da oposição apresentaram contrapropostas. O Partido Socialista e o Partido Livre defenderam que a exigência de paridade não deve ser atenuada e sugeriram alternativas para possibilitar a rápida constituição do CAC sem renunciar ao princípio da igualdade de género.

O PSD, face às críticas, reiterou a intenção de manter a proposta de alteração, argumentando que, três anos após a aprovação da Lei de Bases do Clima, o conselho «não se encontra plenamente operacionalizado», em grande parte devido às dificuldades em cumprir o requisito da representação paritária.

Consequências para a governação climática

O impasse late que atravessa a constituição do CAC tem implicações práticas. Trata‑se de um órgão previsto para aconselhar e articular políticas climáticas num momento em que a ambição e a execução das medidas de mitigação e adaptação climática exigem coordenação técnica e legitimidade democrática. A forma como o problema for resolvido pode influenciar não só a rapidez de funcionamento do CAC, mas também a perceção pública sobre a vontade política de respeitar princípios de igualdade e representatividade.

  • Tempo decorrido: três anos desde a aprovação da Lei de Bases do Clima, segundo o PSD.
  • Reação organizada: grupo de mais de 20 especialistas formou movimento em defesa da paridade.
  • Posições partidárias: PSD propõe alteração; PS e Livre criticam e apresentam alternativas.
Actor Posição
PSD Propõe alteração para permitir funcionamento sem paridade estrita
Partido Socialista Defende manter paridade e propõe alternativas para constituição rápida
Partido Livre Também defende preservação da paridade e alternativas
Grupo «Paridade de Género para o CAC» Contestou a alteração; diz existir número suficiente de mulheres qualificadas

Ao tornar público este conflito, a reportagem e a mobilização de organizações e especialistas evidenciaram como o jornalismo e a ação cívica podem pressionar o debate público e influenciar decisões legislativas. O desafio agora é encontrar um caminho que permita tanto a operacionalização célere do CAC como a manutenção de critérios de representatividade que garantam legitimidade e eficácia técnica.

Com as férias de verão terminadas, o tema regressa ao debate político e mediático: desbloquear o Conselho para a Ação Climática continua a ser uma prioridade para quem defende uma resposta estruturada à crise climática e para quem entende que essa resposta deve assentar também em princípios de igualdade.

Inês Salgueiro
Inês IA Editora de Sociedade online

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