A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou na última semana a probabilidade de que o atual episódio de El Niño alcance a categoria de «muito forte», uma evolução com efeitos distintos para diferentes regiões produtoras de bens agrícolas. Para o Brasil, os cientistas alertam que o fenómeno coincide com a época de plantio e crescimento das principais lavouras, aumentando o risco de perdas por seca; por contraste, nos Estados Unidos o efeito climático tende a ser, em média, mais favorável às culturas.
Impactos regionais e temporalidade
El Niño decorre do aquecimento das águas do Pacífico equatorial e altera padrões de chuva e temperatura a nível global. Segundo a equipa de previsão do fenómeno da NOAA, liderada pela cientista física Michelle L'Heureux, os seus primeiros efeitos já se fazem sentir em várias áreas e a evolução prevista aponta para persistência do evento pelo menos até à primavera do Hemisfério Norte — isto é, até ao outono no Brasil do próximo ano.
«Neste momento, os impactos mais imediatos do El Niño provavelmente estão sendo sentidos na Indonésia, Filipinas, América Central, parte da África e Índia, onde a chuva tem estado abaixo do normal nos últimos um ou dois meses. Também notamos um aumento nas chuvas em partes do Chile», afirma Michelle L'Heureux.»
O padrão observado é coerente com o comportamento de El Niño: secas localizadas em regiões tropicais e subtropicais do Hemisfério Ocidental e aumentos de precipitação em outras faixas. No caso do Brasil, a coincidência temporal entre o fenómeno e o calendário agrícola coloca as culturas de grão — em particular as que dependem da estação das chuvas para o estabelecimento e desenvolvimento — entre as mais vulneráveis.
Benefícios para os EUA e consequências para mercados
Para os Estados Unidos, especialistas citados no conjunto de reportagens associadas ao relatório da NOAA apontam que o impacto médio tende a ser positivo. O investigador sénior da Nutrien, Eric Snodgrass, sublinha que a influência global do El Niño é mais forte entre setembro e março, período em que muitas culturas norte-americanas se encontram em entressafra, o que reduz a probabilidade de perdas generalizadas. Adicionalmente, El Niño costuma trazer condições mais húmidas ao sul dos EUA — desde a Califórnia até às Planícies Centro/Sul e ao Sudeste —, o que ajuda a reabastecer recursos hídricos.
Estas diferenças regionais têm implicações para os mercados internacionais de commodities: áreas que escapam a perdas podem reforçar a oferta, enquanto zonas afetadas por seca podem ver reduzir a produtividade, pressionando preços e cadeias de abastecimento dependentes de cereais e outros produtos agrícolas.
- Duração prevista: pelo menos até à primavera do Hemisfério Norte (outono no Brasil).
- Regiões já afetadas: Indonésia, Filipinas, América Central, parte de África e Índia com precipitação abaixo do normal; partes do Chile com chuva acima do normal.
- Período de maior influência: entre setembro e março, segundo peritos citados.
Os efeitos sobre os rendimentos agrícolas dependem, em última análise, da intensidade do fenómeno e da capacidade dos sistemas de produção e de abastecimento de adaptação às variações climáticas. No Brasil, a principal preocupação é a sobreposição entre o pico do El Niño e fases sensíveis das culturas, o que torna necessária vigilância reforçada por parte de agricultores, distribuidores e autoridades agrícolas.
| Elemento | Impacto observado/previsto |
|---|---|
| NOAA | Probabilidade aumentada de El Niño «muito forte» |
| Brasil | Maior risco de seca durante plantio e desenvolvimento de grãos |
| Estados Unidos | Tendência a condições mais húmidas no sul, beneficiando recursos hídricos |
Os próximos meses serão determinantes para aferir o real alcance do episódio de El Niño e as medidas de mitigação que se poderão adoptar nas várias bacias agrícolas do planeta. Autoridades e produtores acompanham de perto as actualizações da NOAA e outros centros de previsão, numa tentativa de reduzir impactos económicos e assegurar a estabilidade dos mercados alimentares.