O Brasil está “muito mais bem preparado” para enfrentar os impactos do El Niño em comparação com 2023 e 2024, afirmou o ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, João Paulo Capobianco, numa entrevista ao jornal Valor. Apesar desta evolução, o governante alertou para a escala do desafio e defendeu uma mudança de paradigma: tratar a adaptação climática como oportunidade económica e não apenas como custo público.
Preparação e prioridades
Capobianco, que assumiu o cargo em março, reconheceu que o país teve de «se organizar durante a crise» nos anos anteriores, quando o fenómeno climático agravou situações de seca e incêndios. Segundo o ministro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática (MMA) tem como missões centrais, durante a chegada do El Niño, o combate e a prevenção de incêndios e a assistência a comunidades isoladas na Amazónia.
O responsável sublinhou que, embora o Estado tenha de manter políticas públicas e acionar instrumentos de resposta, a adaptação não pode ser encarada exclusivamente como uma despesa pública. Para Capobianco, é imperativo que o setor privado passe a entender a adaptação como investimento, capaz de gerar atividade económica e inovação.
«Adaptação só tem sido percebida pelo setor económico e pela sociedade como uma ação de governo», afirmou o ministro.
Oportunidades económicas e áreas de intervenção
Na entrevista, o ministro aponta várias frentes onde a adaptação pode originar emprego e investimento privado, sem, contudo, descurar a responsabilidade do Estado. Entre as oportunidades enumeradas destacam-se:
- obras de infraestrutura com foco na resiliência climática;
- intervenções na adaptação das cidades;
- recuperação e proteção de áreas verdes;
- reabilitação e reforma de edifícios para aumentar eficiência e resistência a eventos extremos.
Capobianco frisou que, historicamente, a adaptação foi menos desenvolvida no quadro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas do que a mitigação — a redução de emissões — e os meios de implementação (recursos, tecnologia, cooperação). Essa subordinação levou a menos recursos e menor desenvolvimento de tecnologia para adaptação, um quadro que começa a mudar nas conferências internacionais mais recentes.
Implicações e desafios
O apelo do ministro tem implicações práticas e políticas: se a adaptação for encarada como área de investimento, exigirá novos instrumentos financeiros, marcos regulatórios que incentivem o setor privado e mecanismos de parceria público-privada desenhados para projetos de longo prazo. Ao mesmo tempo, manter a capacidade operacional do Estado para responder a incêndios e proteger populações vulneráveis continua a ser uma prioridade imediata.
| Elemento | Prioridade indicada |
|---|---|
| Prevenção e combate a incêndios | Alta (Ação operacional do MMA durante o El Niño) |
| Assistência a comunidades isoladas na Amazónia | Alta (Missão do MMA durante períodos críticos) |
| Promoção de investimento privado | Estratégica (Visão de adaptação como oportunidade económica) |
O discurso do ministro realça a necessidade de alinhar políticas públicas com incentivos capazes de mobilizar capitais privados e tecnologia para ações de adaptação — desde infraestruturas resilientes até a requalificação urbana. Essa abordagem procura reduzir a vulnerabilidade do território a fenómenos climáticos extremos, ao mesmo tempo que cria mercado para serviços e obras que aumentem a resiliência.
Ao recordar que a dimensão do problema é «muito grande», Capobianco reforça a mensagem de que as respostas exigirão coordenação entre Estado, empresas e sociedade civil, bem como financiamento adequado e estratégias de longo prazo para transformar medidas de adaptação em investimentos sustentáveis.