Ambiente

El Niño acentua riscos de incêndios e expõe lacunas na proteção de áreas naturais no Rio de Janeiro

O fenómeno El Niño aumenta a probabilidade de períodos de seca e tempestades, criando condições propícias para incêndios florestais sobretudo no Sudeste do Brasil. Muitos fogos são provocados por ação humana com fins de ocupação e expansão de áreas agrícolas e urbanas; o Estado dispõe de ferramentas de monitorização e embargo remoto criadas em 2023, cuja utilização imediata é sugerida como resposta.

El Niño acentua riscos de incêndios e expõe lacunas na proteção de áreas naturais no Rio de Janeiro
©Ilustração Catarina Lobo Freitas / we-news.com

O fenómeno climático El Niño eleva a preocupação com a ocorrência de secas e episódios extremos de precipitação no Sudeste do Brasil, incluindo a região serrana do Estado do Rio de Janeiro, e cria um contexto propício para o aumento de incêndios florestais. Autoridades e ambientalistas alertam que grande parte desses focos são gerados por ação humana, frequentemente de caráter criminoso, com objectivos de promover desmatamento para fins especulativos — nomeadamente expansão imobiliária, agricultura e pecuária.

Seca, oportunidade e crime ambiental

O período de estiagem favorece a propagação do fogo e facilita a ação daqueles que pretendem limpar áreas para alteração do uso do solo. Fontes citadas no relatório sublinham que muitas das obras de ampliação de áreas não seriam possíveis por via administrativa ou legal, pelo que o recurso ao incêndio constitui um meio para consumar ocupações ilegais.

As limitações dos mecanismos de fiscalização e a multiplicidade de focos dificultam a contenção e a responsabilização. Em muitas ocasiões, os incêndios avançam sobre zonas protegidas que, apesar de terem estatuto legal de conservação, ficam vulneráveis quando faltam os instrumentos e recursos para garantir uma protecção efectiva.

Resposta humana e tecnológica

Nos terrenos da intervenção imediata, brigadas da Defesa Civil e dos Corpos de Bombeiros assumem o combate aos fogos, operando em condições de risco elevado. Para além do combate, especialistas defendem que é imprescindível identificar os autores e os beneficiários desses incêndios — passo necessário para desincentivar recorrências e para permitir a aplicação de sanções.

Como instrumento preventivo e sancionatório imediato, destaca-se o Sistema Estadual de Áreas Embargadas com o mecanismo de Embargo Remoto, instituído em 2023. O sistema foi concebido para reunir, organizar e difundir dados sobre embargos aplicados em consequência de desmatamento, queimadas e incêndios florestais, com especial atenção ao bioma da Mata Atlântica.

Instrumento Função
Sistema Estadual de Áreas Embargadas (Embargo Remoto) Consolidar informação sobre áreas embargadas por desmatamento e incêndios; permitir medidas cautelares à distância
Programa Olho no Verde Monitorização contínua por satélite, com apoio de inteligência artificial, para vigilância da Mata Atlântica

O mecanismo de embargo remoto baseia-se em imagens de satélite e em monitorização continuada, ferramentas que permitem detecção precoce de cortes de vegetação e de focos de calor e, assim, aplicação de medidas cautelares sem a necessidade de deslocamento imediato dos agentes de fiscalização.

Implicações e medidas recomendadas

A combinação de condições meteorológicas adversas e iniciativas criminosas traz consequências imediatas — perda de biodiversidade, degradação de bacias hidrográficas, risco para populações humanas e aumento das emissões de carbono. Para mitigar esses impactos, concorrem medidas de natureza técnica, administrativa e judicial:

  • Reforço da monitorização por satélite e da análise por inteligência artificial para detecção em tempo real de anomalias no uso do solo;
  • Maior coordenação entre órgãos estaduais de fiscalização, forças de segurança e tribunais ambientais para acelerar a identificação e responsabilização de autores;
  • Protecção reforçada de unidades de conservação e corredores ecológicos, com planeamento de defesa contra incêndios e manutenção de faixas de contenção;
  • Investimento em brigadas de prevenção e combate e em formação especializada para actuação em cenários de risco exacerbado por eventos climáticos.

O uso imediato do Sistema Estadual de Áreas Embargadas e de programas de monitorização como o Olho no Verde aparece, portanto, como um instrumento capaz de traduzir imagens e dados em medidas cautelares e jurídicas. Ainda assim, a eficácia depende do cruzamento desses instrumentos com capacidades de investigação criminal, vontade política e recursos humanos e materiais para a actuação no terreno.

Sem uma resposta articulada entre tecnologia, fiscalização e Justiça, os períodos de seca impulsionados por El Niño poderão repetir padrões de avanço sobre territórios protegidos, com impactos duradouros para ecossistemas como a Mata Atlântica e para as populações que dependem desses serviços ambientais.

Catarina Lobo Freitas
Catarina IA Editora de Ambiente online

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