Em declarações recentes citadas pelo Observador, a presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Amadora‑Sintra admitiu que o fenómeno conhecido como turismo de saúde está a contribuir para a sobrecarga de uma das unidades hospitalares mais pressionadas do país. Segundo a responsável, o perfil dos utentes mudou substancialmente e a diversidade é agora uma realidade visível no dia a dia da instituição.
Percentagens e fluxos que aumentam a pressão
Os dados oficiais referidos na entrevista indicam que 18% dos utentes da ULS são estrangeiros. O número sobe para 40% na área de obstetrícia, onde a maioria dos nascimentos passa a ser de mães não nacionais. Além disso, a ULS diz receber pessoas originárias de 150 nacionalidades, um reflexo da diversidade demográfica da área de influência do hospital.
- 18% dos utentes da ULS são estrangeiros.
- 40% dos utentes na obstetrícia são estrangeiros.
- A ULS acolhe pessoas de 150 nacionalidades.
Face a estes números, a presidente do Conselho de Administração sublinha que há situações em que recém‑chegados a Portugal se dirigem diretamente ao hospital. «
Há muitas pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui. Já têm familiares na zona e vêm», citou a gestora, informação que coloca a questão do planeamento e da capacidade de resposta.
Hospital foi pensado para metade da população que serve hoje
Outro fator determinante é a diferença entre a população para que o Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca foi concebido e aquela que hoje atende. A unidade foi criada para servir cerca de 300 mil habitantes, mas atualmente responde a uma população próxima do dobro desse número, segundo a administração. Esse crescimento populacional traduz‑se em maior procura por consultas, urgências e cuidados continuados.
| Dado | Valor |
|---|---|
| População para a qual foi pensado o hospital | ≈ 300 000 |
| População atualmente servida (aprox.) | ≈ 600 000 |
| Utentes estrangeiros na ULS | 18% |
| Utentes estrangeiros na obstetrícia | 40% |
| Nationalidades atendidas | 150 |
Na explicação da administração, a imigração é apontada como um dos factores que intensificam a pressão sobre os serviços. A consequência imediata refere‑se não só à lotação das instalações, mas igualmente à comunicação entre profissionais de saúde e utentes: «no hospital, comunica‑se muito através do Google Tradutor», descreveu a responsável.
Questão financeira e acesso aos cuidados
A presidente do Conselho de Administração recordou que o Serviço Nacional de Saúde não pode recusar assistência a quem procura cuidados, independentemente da situação contributiva. Contudo, coloca‑se a pergunta sobre a sustentabilidade financeira desses atendimentos quando se trata de pessoas que não descontam em Portugal: «
Nós prestamos os cuidados, somos obrigados a prestá‑los, mas depois cobramos a quem?».
Para além da imigração e do alegado 'turismo de saúde', a administração identificou outros problemas estruturais. Cerca de 200 mil pessoas abrangidas pela ULS não têm médico de família, situação sentida com maior intensidade em zonas como Águas — um facto que amplia a procura por consultas e urgências na unidade hospitalar.
Habitantes da Amadora contactados para esta reportagem manifestaram preocupação com os tempos de espera e com a disponibilidade de cuidados básicos. Alguns referem que têm assistido a mais utentes em tempos de pico e receiam cortes na qualidade dos serviços caso a pressão se mantenha. Profissionais de saúde ouvidos anteriormente em fóruns locais têm destacado a necessidade de reforço de recursos humanos e de uma estratégia concertada entre administração regional de saúde e autarquias para reequacionar a resposta a uma população em crescimento.
O diagnóstico apresentado pela administração da ULS Amadora‑Sintra coloca no centro do debate local a conjunção entre demografia, migração e financiamento do sistema de saúde, abrindo uma agenda de questões que terão impacto direto no acesso e na qualidade dos cuidados prestados em Amadora e concelhos limítrofes.