Comunidades indígenas da Terra Indígena São Marcos, em Boa Vista, vêm mudando procedimentos tradicionais de manejo do fogo diante da perspectiva de um El Niño mais intenso no segundo semestre de 2026. A previsão de períodos mais quentes e secos motivou medidas de prevenção e capacitação para reduzir o risco de quebras de controle e incêndios de grande porte.
Capacitação e redução de queimas
Na comunidade Campo Alegre, aproximadamente 100 pessoas — entre estudantes e agricultores familiares indígenas — participaram de um treinamento focado em prevenção e combate a incêndios. A iniciativa integra um ciclo de oficinas de educação ambiental promovido em parceria por órgãos federais.
Até o momento, sete comunidades indígenas em Roraima receberam formações semelhantes, segundo os organizadores. As ações têm por objetivo orientar sobre técnicas de uso seguro do fogo em atividades que fazem parte da rotina local, como a preparação de roças, limpeza de áreas e renovação de pastagens.
O que muda na prática
Os cursos abordam planejamento das queimas, avaliação das condições climáticas antes do início, demarcação de aceiros e procedimentos básicos de contenção. Também tratam do momento oportuno para empregar fogo controlado e das alternativas quando o risco de propagação é elevado.
Entre as medidas recomendadas estão:
- Evitar queimadas em períodos de vento forte ou seca prolongada;
- Estabelecer aceiros e pontos de observação antes de iniciar a queima;
- Manter ferramentas e pessoas preparadas para controlar o fogo;
- Priorizar técnicas de manejo que reduzam a necessidade de grandes queimas.
“As comunidades tradicionais que usam muito fogo tanto nas queimas prescritas, queimas controladas, rebrote de pastagem. Elas precisam”
A declaração é atribuída ao supervisor estadual das Brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) em Roraima, Bruno Eduardo Wapichana, que atua na articulação das capacitações.
Cenário climático e riscos previstos
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial. Prognósticos meteorológicos apontam que o fenômeno deverá intensificar-se no segundo semestre de 2026 e pode persistir até o início de 2027. Para Roraima, a projeção implica maior probabilidade de ondas de calor, redução das chuvas e, consequentemente, aumento do potencial para incêndios florestais.
Essa combinação de fatores eleva a exposição de comunidades tradicionais, unidades de conservação e áreas de produção rural, exigindo medidas de prevenção e resposta rápida para evitar danos ambientais e riscos à saúde humana.
Articulação institucional
As oficinas em Roraima são realizadas em cooperação com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O Prevfogo oferece orientação técnica e participação das brigadas locais nas capacitações.
A articulação entre órgãos federais e lideranças indígenas visa não apenas transmitir técnicas, mas também adaptar recomendações às práticas culturais e à realidade local, preservando o modo de vida sem ignorar os riscos crescentes.
Impacto local e recomendações práticas
Para produtores e comunidades da região, especialistas recomendam atenção redobrada ao calendário agrícola e monitoramento das previsões meteorológicas. Entre as medidas práticas que podem ser adotadas estão:
- Consultas regulares às previsões de curto prazo antes de planejar queimas;
- Priorizar pequenas queimas controladas com aceiros bem definidos;
- Buscar alternativas de manejo que reduzam uso do fogo, como roçadas mecânicas quando viáveis;
- Fortalecer comunicação entre comunidades, brigadas locais e órgãos de proteção ambiental.
| Item | Quantidade |
|---|---|
| Comunidades treinadas | 7 |
| Participantes em Campo Alegre | ~100 |
As oficinas também se configuram como oportunidade para trocar saberes tradicionais e técnicas científicas de prevenção, fortalecendo a capacidade local de resposta. Para além da capacitação, especialistas alertam para a necessidade de políticas públicas contínuas que apoiem monitoramento, equipamentos e recursos para brigadas comunitárias.
Com a chegada do período de maior risco, as mudanças promovidas nas práticas de manejo e a expansão das capacitações poderão ser determinantes para reduzir ocorrências de incêndios que colocam em risco vidas, territórios e a biodiversidade em Roraima.