O levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) sobre planos de governo dos candidatos mais bem posicionados nos estados da Amazônia Legal identificou que, em Roraima, os documentos de campanha de Soldado Sampaio (Republicanos) e Arthur Henrique (PL) reúnem menções a crianças e adolescentes, mas carecem de propostas detalhadas para o enfrentamento da violência contra esse público.
Volume de referências e foco temático
Segundo o relatório do UNICEF, os dois planos somam 57 referências a crianças e adolescentes: 40 no documento de Soldado Sampaio e 17 no de Arthur Henrique. Essas menções, entretanto, concentram-se em áreas amplas — como proteção social, saúde e educação — e apresentam poucas iniciativas específicas voltadas ao combate da violência sexual e letal contra menores.
| Plano | Total de menções | Referências relacionadas à violência/segurança | Proteção social / Saúde / Educação (exemplos) |
|---|---|---|---|
| Soldado Sampaio (Republicanos) | 40 | 11 | 13 / 9 / 6 |
| Arthur Henrique (PL) | 17 | 6 | 5 / 3 / 2 |
Contexto dos indicadores de violência em Roraima
O relatório do UNICEF insere a análise dos planos num quadro de elevada violência contra crianças e adolescentes no estado. Em 2023, Roraima registrou 228,7 casos de estupro por 100 mil habitantes na faixa etária de 0 a 19 anos, índice quase o dobro da média nacional (116,4 por 100 mil) apontada pelo estudo "Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil", elaborado pelo UNICEF em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Além disso, o levantamento destaca que 30% das mortes violentas de crianças e adolescentes em Roraima, em 2023, estiveram relacionadas à letalidade policial — percentual entre os mais elevados entre os estados analisados.
Metodologia do levantamento
Para a avaliação, o UNICEF selecionou os dois candidatos melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto em cada um dos oito estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), totalizando 16 planos de governo. O relatório aponta variações expressivas na presença de propostas que mencionam crianças e adolescentes: o maior número de referências ocorreu no plano do candidato Omar Aziz (PSD), do Amazonas, com 209 menções.
O que os eleitores e gestores devem observar
A análise do UNICEF ressalta a diferença entre menções gerais e propostas operacionais. Do ponto de vista da implementação, a existência de referências não garante a adoção de políticas eficazes. Para avaliar a robustez de um plano de governo voltado à proteção infantojuvenil, especialistas costumam recomendar atenção a elementos como:
- recursos orçamentários claramente alocados;
- metas e prazos mensuráveis;
- integração entre serviços de saúde, assistência social e segurança pública;
- planos de prevenção em escolas e comunidades, com estratégias de identificação precoce de riscos;
- mecanismos de monitoramento e participação da sociedade civil.
Implicações para políticas públicas em Roraima
O contraste entre menções discursivas e a gravidade dos indicadores em Roraima aponta para a necessidade de transformações práticas. Altas taxas de estupro entre menores e a proporção significativa de mortes relacionadas à letalidade policial exigem ações coordenadas que vão além de enunciados nos planos: atribuição de responsabilidades, orçamento dedicado, capacitação de profissionais e protocolos claros para atendimento às vítimas.
Em síntese, a observação do UNICEF coloca a questão no centro do debate eleitoral: mais do que declarações, o eleitorado e os órgãos de controle precisam exigir planos com propostas especificadas, que permitam aferir resultados na proteção de crianças e adolescentes em Roraima.