O crescimento do poder de fogo entre organizações criminosas e a disseminação das chamadas "ghost guns" — armas artesanais sem identificação — estão alterando o perfil da violência na Região Norte e pressionando as forças de segurança no Amazonas. Levantamento do Instituto Sou da Paz cita aumento significativo nas apreensões de fuzis em estados da Amazônia Legal e aponta uma mudança logística e tecnológica na cadeia de abastecimento do crime.
Interiorização das rotas e militarização das quadrilhas
Segundo o estudo, as rotas do narcotráfico e o controle territorial vêm empurrando o armamento pesado para além do eixo tradicional Rio–São Paulo. No Norte, a lógica de ocupação de áreas pela força — especialmente ao longo de rios e fronteiras — tem transformado o fuzil em instrumento central de coerção. Essa mudança é sentida nas cidades ribeirinhas e nos pontos de intersecção entre rodovias e hidrovias que conectam Manaus ao interior e à fronteira.
Nas margens dos grandes rios amazônicos, a mobilidade por embarcações barateia e facilita o transporte de cargas, inclusive ilícitas. A presença de fuzis e de pistolas mais modernas reduz a assimetria entre facções e fortalece a exigência de respostas com maior poder de fogo por parte das forças estaduais e federais.
Dados nacionais que repercutem no Amazonas
| Ano | Apreensões nacionais de fuzis |
|---|---|
| 2021 | 807 |
| 2025 | 2.137 |
O levantamento registra que, no Brasil, as apreensões de fuzis passaram de 807 em 2021 para 2.137 em 2025, um salto de 164,8%. Estados do Norte, como o Pará, apresentaram aumentos ainda mais acentuados — no caso do Pará, citado no estudo, o crescimento foi de 360% em cinco anos — evidenciando que o armamento pesado deixou de ser fenômeno restrito ao Sudeste.
Ghost guns: tecnologia acessível, controle reduzido
Outro ponto destacado pelo relatório é a difusão das armas artesanais produzidas sem numeração de série, as chamadas ghost guns. Com projetos disponíveis em redes fechadas e na deep web, a fabricação por meio de impressão 3D e peças importadas ou produzidas clandestinamente reduz a dependência das rotas tradicionais de contrabando.
Essa modalidade complica investigações e apreensões: sem registro, a origem e o trajeto dessas armas tornam-se mais difíceis de rastrear. Além disso, mudanças no mercado interno de armamentos e a ampliação do uso do calibre 9mm facilitaram a adaptação das quadrilhas a materiais mais padronizados, com maior capacidade de fogo.
Impacto local: Manaus, Zona Franca e a logística amazônica
Manaus, como polo industrial e logístico da Zona Franca, concentra grande fluxo de mercadorias e passageiros que aportam por via fluvial e aérea. Embora o estudo seja nacional, suas conclusões reverberam aqui: a extensão das hidrovias e das estradas no interior cria pontos vulneráveis a desvios e alvos para a circulação de armas e munições.
Para atuar neste território de grandes distâncias e baixa densidade populacional, as forças de segurança precisam se articular entre operações móveis e inteligência. A geografia amazônica, com trajetos de centenas de quilômetros entre rios e municípios, exige planejamento logístico e cooperação entre polícias civil, militar e órgãos federais para rastrear e interceptar carregamentos.
Desafio para investigação e prevenção
O relatório ressalta também a mudança no perfil das armas apreendidas: as pistolas ganharam espaço, passando de 20,7% para 27,8% do total, enquanto o uso tradicional de revólveres diminuiu. Isso indica modernização técnica por parte do crime organizado, que busca maior cadência de tiro e capacidade defensiva em confrontos.
- Estrutura criminosa: expansão de facções nacionais (CV, PCC) atuando na região.
- Meio de produção: disseminação de projetos de armas artesanais por redes digitais.
- Logística: uso intensivo de hidrovias e fronteiras para movimentação de armamentos.
O conjunto desses fatores impõe obstáculos inéditos às investigações: além de coibir o fluxo de armas, é necessário identificar os arranjos de financiamento, rotas e pontos de montagem das ghost guns. A ação efetiva passa por investimentos em tecnologia forense, cooperação interestadual e reforço de inteligência nos corredores fluviais.
No Amazonas, onde comunidades ribeirinhas convivem com longas distâncias até centros de segurança, a combinação entre interiorização das rotas e armas sem identificação representa risco direto à integridade pública. A resposta exigirá, além de operações repressivas, estratégias de prevenção que considerem a particularidade da geografia e da economia regional.
Paulo Ribeiro Maués, correspondente no Amazonas