O Mundial de 2026 e a edição feminina da Taça das Nações Africanas (CAN), realizada em Marrocos, colocaram «um holofote» sobre o futebol africano e sobre atletas afrodescendentes que actuam na Europa, numa janela de oportunidade que, segundo a agente desportiva Maria Tavares Malfoy, deve ser aproveitada para reforçar a formação, a promoção de talentos e práticas de boa governação desportiva.
Visibilidade e mercado
Para Maria Tavares Malfoy — fundadora da agência AGFM (Africa's Global Football Management) e primeira cabo-verdiana a obter a licença FIFA Match Agent em 2024 —, o impacto destas competições vai além da competição em si e traduz-se em maior atenção de clubes, olheiros e mercados europeus para jogadores provenientes de África e da diáspora.
«[O Mundial colocou] não só o holofote nos jogadores africanos, mas também afrodescendentes, que jogam também aqui no Campeonato francês e nos campeonatos europeus», afirmou a agente durante um encontro da comunidade cabo-verdiana em França.
Malfoy sublinha que os campeonatos europeus concentram uma parcela significativa dos talentos africanos: «sabemos que os campeonatos europeus são dotados de 80% dos grandes talentos africanos», disse, lembrando a importância de criar estruturas e oportunidades que beneficiem sobretudo o futebol jovem e o feminino.
Prioridades: formação, mercado e governação
Na sua intervenção, a agente destacou três eixos prioritários para capitalizar o interesse gerado pelas competições:
- Formação jovem — investimento em programas de base que permitam a identificação e acompanhamento dos jogadores desde cedo;
- Desenvolvimento do futebol feminino — mais visibilidade e recursos para ligas e selecções femininas, aproveitando o impulso da CAN;
- Boa governação — transparência e processos sustentáveis nas federações e agências para garantir oportunidades justas e duradouras.
A AGFM, explica Malfoy, opera não só em Cabo Verde mas também noutros mercados, com capacidade para organizar jogos amigáveis, campos de treino e outros eventos graças à licença FIFA que detém. Esta versatilidade permite-lhes articular a promoção de atletas com necessidades concretas de preparação e visibilidade internacional.
Oportunidades para a diáspora e para clubes europeus
O encontro da comunidade cabo-verdiana em França, onde Malfoy participou, teve como foco o pós-Mundial de 2026 e as oportunidades para a diáspora. A agente frisou que a atenção sobre jogadores afrodescendentes que actuam em campeonatos como o francês é uma oportunidade para reforçar laços entre federações, agentes e clubes, promovendo parcerias que possam potenciar carreiras e criar projectos sustentáveis.
Do ponto de vista prático, a maior exposição mediática e competitiva traduz-se em:
| Área | Impacto |
|---|---|
| Scouting | Mais atenção dos olheiros europeus a jogadores africanos e afrodescendentes |
| Mercado | Aumento da procura por talentos, sobretudo jovens e femininos |
| Capacitação | Necessidade de melhores infra‑estruturas de formação e gestão |
Malfoy apelou ainda à aposta em projectos que «aliem a parte desportiva à importância do desenvolvimento sustentável e da boa governação», reforçando que a organização de jogos e campos de treino deve obedecer a princípios que promovam o crescimento a longo prazo e a justiça no tratamento de atletas e equipas.
Consequências para Portugal
Embora a análise de Maria Tavares Malfoy se centre em África e na diáspora, o cenário tem implicações directas para Portugal: o país, com ligações históricas a nações africanas e com uma presença significativa de jogadores afrodescendentes nos seus campeonatos, pode beneficiar desta maior visibilidade ao reforçar programas de cooperação, scouting e formação. Para agentes, clubes e federações portuguesas, a janela aberta pelo Mundial e pela CAN exige uma resposta estratégica para captar talentos e promover modelos sustentáveis de desenvolvimento.
Num contexto em que a mobilidade de jogadores e a globalização do scouting são realidades incontornáveis, aproveitar o momento implica, nas palavras de Malfoy, «trabalhar a nível global, mas com um objectivo claro: o futebol africano, o futebol jovem e o futebol feminino», articulando-se com boas práticas de governação e de sustentabilidade desportiva.