A Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que recomenda a utilização de projecções cartográficas que reflitam as dimensões reais dos continentes, decisão tomada por uma larga maioria de delegações. O texto foi aprovado por 164 votos a favor e com apenas um voto contra, o dos Estados Unidos, segundo informação difundida na semana passada.
Contexto histórico e científico
A iniciativa surge no seguimento de um esforço diplomático impulsionado pela União Africana e visa corrigir distorções herdadas de projecções históricas, nomeadamente a projeção de Mercator, concebida em 1569 para facilitar a navegação marítima. Embora útil para traçar rotas, essa solução cartográfica exagera a área junto aos polos e reduz a representação de regiões equatoriais, levando a uma perceção errónea das dimensões relativas entre continentes.
O debate tem vindo a ganhar força nos últimos anos por razões que são simultaneamente técnicas e simbólicas: trata-se de alinhar as ferramentas de representação geográfica com factos físicos — as superfícies dos continentes — e ao mesmo tempo corrigir um imaginário global que frequentemente relega África a uma escala visual subavaliada.
Significado político e cultural
Para a União Africana e para muitos dos seus apoiantes, a mudança proposta não pretende «tornar» África maior, mas antes restituir-lhe o peso real no mapa-mundo. A leitura política é clara: mapas também são instrumentos de memória e de poder. Alterar ou actualizar projecções é, por isso, uma forma de reivindicar presença e visibilidade na representação global.
O facto de os Estados Unidos terem sido a única delegação a votar contra a resolução foi lido por observadores como uma nota de ironia, dada a trajectória recente de intervenções e sugestões sobre topónimos e representações geográficas no âmbito da política norte‑americana. Entre os exemplos evocadas por analistas estão intervenções associadas ao ex-Presidente Donald Trump que procuraram alterar ou sugestionar novos nomes para elementos geográficos e regionais — episódios que ilustram a consciência crescente sobre como o naming e a cartografia intersectam o poder e a memória colectiva.
Implicações práticas
A resolução aprovada pela Assembleia-Geral tem, em grande medida, um carácter indicativo: incentiva Estados e instituições a contemplar e a promover projecções alternativas nas suas publicações e materiais educativos. A adopção prática depende agora de decisões nacionais, de políticas educativas e de actualizações por parte de editores, plataformas digitais e fornecedores de mapas.
- Revisão de materiais escolares e atlas oficiais para reflectir dimensões reais;
- Ajustes por parte de empresas tecnológicas que fornecem serviços de cartografia digital;
- Debate académico sobre quais as projecções mais adequadas a diferentes finalidades (navegação, ensino, representação política).
Do ponto de vista técnico, não existe uma única projecção «correta» para todas as finalidades: cada método apresenta compensações entre distorção de área, forma, distância e direcção. A resolução da ONU, ao não impôr uma projecção específica, abre espaço para uma adopção plural conforme os contextos de utilização.
Representação e diplomacia
Para muitos Estados africanos a vitória na Assembleia-Geral simboliza um avanço diplomático e cultural — a aceitação, por parte da maioria dos países, de que a representação geográfica tem consequências sobre a percepção internacional. A mudança proposta pode influenciar desde currículo escolar até a forma como as questões geopolíticas e económicas são narradas nos meios de comunicação e nas decisões políticas.
| Resultado da votação | Número |
|---|---|
| Votos a favor | 164 |
| Votos contra | 1 (Estados Unidos) |
O alcance efectivo desta resolução dependerá, por fim, da vontade política dos Estados, das prioridades das instituições educativas e da resposta do sector privado de serviços cartográficos. Mas, acima de tudo, marca um momento simbólico: a comunidade internacional reconheceu, por larga maioria, a necessidade de alinhar a imagem do mundo com as suas verdadeiras dimensões e de contemplar esta questão como parte de uma agenda mais ampla de justiça simbólica e de representação.