O turismo português mantém-se em boa saúde, dizem responsáveis do setor, mas é chegado o momento de alterar prioridades: deixar de privilegiar apenas o número de visitantes e passar a focar-se na criação de valor, com visitantes que permaneçam mais tempo e gastem mais.
Dados recentes confirmam crescimento, com sinais de consolidação
Na véspera do Dia Mundial do Turismo, o presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, afirmou em entrevista à Lusa que, apesar de o ritmo de expansão não ser o mesmo de anos anteriores, os indicadores ainda mostram evolução positiva. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), as dormidas no alojamento turístico aumentaram 1,5% até julho, para um total de 46,5 milhões, enquanto os proveitos totais cresceram 5,3%, atingindo 4.073,2 milhões de euros.
«O estado de saúde do turismo continua bom. Os crescimentos não têm sido, de facto, os do passado, mas os recordes continuam-se a bater», afirmou Francisco Calheiros.
Calheiros lembrou que, entre 2009 e 2019, o número de turistas em Portugal duplicou, o que torna improvável a repetição de crescimentos exponenciais quando já se lida com valores da ordem dos milhões de visitantes e das milhões de dormidas. Para o responsável da CTP, esses factos — juntamente com constrangimentos de capacidade, como o aeroporto de Lisboa a operar praticamente a plena carga — tornam necessária uma mudança de estratégia.
Priorizar rendimento por visitante em vez de volume
Perante a desaceleração do crescimento, a CTP defende concentrar esforços na atração de mercados que gerem maior rendimento por turista. Francisco Calheiros apontou explicitamente países cujos visitantes tendem a pernoitar mais e a gastar mais, como os Estados Unidos, Canadá, Brasil, Polónia e Coreia. Esta opção visa compensar custos crescentes de produção que o setor tem de repercutir nos preços e que influenciam decisões empresariais.
- Foco estratégico sugerido: captar turistas de maior poder de compra.
- Motivos apontados: limitação de capacidade e desaceleração do crescimento de visitantes.
- Indicadores oficiais (INE) até julho: dormidas e proveitos em subida.
Impactos e desafios para a política e para as empresas
A proposta de privilegiar a criação de valor implica efeitos práticos para operadores turísticos, autoridades de planeamento e políticas públicas. Entre as consequências possíveis contam-se a necessidade de:
- ajustar estratégias de marketing e posicionamento dos destinos;
- dotar infraestruturas e serviços de qualidade que acolham visitantes com exigências superiores;
- gerir a sazonalidade e a distribuição territorial dos fluxos;
- l esfera laboral: compatibilizar aumento de preços e manutenção de competitividade.
Calheiros sublinhou que, embora se deva privilegiar a qualidade das receitas, a opção não significa rejeitar o turismo como motor económico, mas antes reorientar a sua contribuição para a economia nacional de forma mais sustentável e rentável.
| Métrica | Valor até julho (INE) | Variação homóloga |
|---|---|---|
| Dormidas | 46,5 milhões | +1,5% |
| Proveitos totais | 4.073,2 milhões € | +5,3% |
Para analistas e decisores, a mudança de prioridades colocada pela CTP exige também reflexão sobre políticas aeroportuárias, capacidade hoteleira e planeamento urbano, de modo a conciliar crescimento económico com qualidade de vida das populações e sustentabilidade ambiental — embora estas questões não tenham sido detalhadas na entrevista.
O debate anunciado emerge num contexto em que o setor procura equilibrar recuperação económica pós-crise com limites físicos e ambientais, e em que a pressão por receitas mais elevadas se confronta com a necessidade de manter destinos atrativos e competitivos.