Um relatório da Europol divulgado esta segunda-feira revela um aumento preocupante do recurso à violência em assaltos a museus europeus, com autores a utilizar ferramentas como martelos, machados, pés-de-cabra e, em alguns casos, explosivos. A força policial europeia aponta para sinais de que se trata de um fenómeno distinto do habitual comércio ilícito de bens culturais e que poderá traduzir a entrada de um novo perfil criminal no terreno.
Uso crescente da força e maior gravidade dos episódios
Segundo o documento, episódios recentes mostram responsáveis que «entram nos edifícios e nas montras através de ferramentas» e que há relatos de violência contra seguranças e outro pessoal. A Europol sublinha que este novo recurso à violência «pode indiciar o envolvimento de autores com um novo perfil, distinto dos que tradicionalmente se envolviam em crimes contra a propriedade cultural».
«Ao invés dos traficantes de bens culturais, que normalmente evitam a violência e se especializam em crime de propriedade organizado ou roubo de bens culturais, estes indivíduos costumam ter históricos de envolvimento noutro tipo de crimes»
O relatório identifica dois casos mediáticos como exemplos deste padrão: o assalto recente ao Museu do Louvre, em Paris, e um caso no museu Drents, em Assen, nos Países Baixos, em que foram usados explosivos.
Recrutamento ocasional e motivações
Para a Europol, os executores de «baixo nível» podem estar a ser recrutados de forma casuística, através das redes sociais, sem laços prévios entre si. Há duas hipóteses apontadas pela força europeia: ou os perpetradores são recrutados aleatoriamente, ou redes já ativas noutros mercados criminais começaram a explorar o «potencial de baixo risco e alto lucro» destes assaltos.
Além de joalharia, o interesse centra-se também em peças arqueológicas e artísticas, incluindo cerâmicas chinesas dos séculos XII e XIII, segundo o relatório.
- Tipos de ferramentas usadas: martelos, machados, pés-de-cabra, explosivos.
- Alvos frequentes: joias, peças arqueológicas (incluindo cerâmica chinesa antiga).
- Métodos de recrutamento: recrutamento via redes sociais e envolvimento de indivíduos sem antecedentes neste tipo de crime.
Casos citados
O relatório recorda, entre outros episódios, dois assaltos recentes com grande repercussão:
| Museu | Ano | Itens | Observações |
|---|---|---|---|
| Drents (Assen, Países Baixos) | 2025 | 4 peças arqueológicas (3 pulseiras e um capacete de ouro) | Assalto com recurso a explosivos; capacete e duas pulseiras devolvidas à Roménia |
| Museu do Louvre (Paris, França) | 2025 | 8 peças de joalharia | Roubadas em poucos minutos após partida de vitrinas; valor estimado em €88 milhões |
Estes exemplos ilustram tanto a sofisticação logística de alguns grupos quanto a ferocidade e rapidez com que estes assaltos são executados. No caso do Drents, parte do material foi posteriormente restituído ao país de origem, a Roménia.
Implicações para museus e para a preservação do património
A constatação da Europol coloca um desafio claro às instituições culturais: como conciliar acessibilidade pública e medidas de segurança robustas sem transformar os espaços museológicos em fortalezas? A emergência de actores mais violentos e potencialmente ligados a outros mercados criminais impõe uma revisão das estratégias de prevenção, cooperação internacional e investigação forense sobre rotas de tráfico.
Para além do reforço de dispositivos físicos e tecnológicos, especialistas de segurança cultural apelam a maior partilha de informação entre museus, autoridades policiais e redes internacionais, bem como à monitorização das plataformas digitais que podem facilitar recrutamento e contrabando.
O relatório da Europol, ao diagnosticar um perfil criminal novo e mais agressivo, sugere que a protecção do património exige agora uma abordagem integrada: prevenção, investigação transnacional e políticas que atentem tanto para a segurança como para a preservação do valor cultural e acessibilidade das colecções.