A crescente capacidade dos sistemas de inteligência artificial tem motivado propostas que defendem a criação de uma renda financiada pelos ganhos da própria IA, com o objetivo de mitigar impactos no emprego e assegurar que a produtividade adicional reverta em benefício público.
Modelo económico e proposta
Entre as vozes que têm impulsionado a ideia estão tanto nomes públicos como Elon Musk e o senador americano Bernie Sanders, bem como investigadores que procuram traduzir o conceito em números e mecanismos concretos. Daniel Schreiber, fundador do MOSAIC AI Policy Institute, apresentou um modelo económico para Israel que explora como a riqueza gerada por tecnologias de IA poderia ser redistribuída para a população.
O estudo de Schreiber propõe a combinação de impostos sobre a produção empresarial automatizada, a tributação de lucros ligados à utilização de IA e o recurso a fundos soberanos como fontes de financiamento. Segundo os valores apresentados no modelo, seria possível financiar um pagamento de cerca de 6.750 shekels por mês para cada adulto (aproximadamente US$ 2.320, segundo o estudo). Com outras fontes adicionais, como impostos sobre heranças e rendimentos de fundos soberanos, o montante mensal poderia subir para cerca de 15.000 shekels.
| Escala do financiamento | Valor mensal por adulto |
|---|---|
| Modelo base (impostos sobre produção de IA) | 6.750 shekels (~US$ 2.320) |
| Com fontes adicionais (heranças, fundos soberanos) | 15.000 shekels |
Riscos e distinções face a revoluções anteriores
Os defensores desta abordagem sublinham que a ameaça colocada pela IA é qualitativamente diferente das revoluções industriais anteriores. Enquanto tecnologias passadas eliminaram certas funções mas simultaneamente criaram novas ocupações, existe o receio de que a inteligência artificial avance sobre um leque mais amplo de tarefas hoje desempenhadas por pessoas — reduzindo simultaneamente a necessidade de mão-de-obra em sectores onde a criação de empregos subsequentes pode ser limitada.
Essa possibilidade justifica, segundo os proponentes, a necessidade de mecanismos que assegurem uma redistribuição mais direta dos ganhos de produtividade, em vez de esperar que o mercado por si só crie alternativas ocupacionais suficientes.
Como funcionaria na prática
O modelo avaliado por Schreiber não é, nesta fase, uma política pública em vigor, mas uma proposta de concepção económica que aponta para um conjunto de medidas fiscais e institucionais:
- Tributação da produção empresarial associada à utilização de IA;
- Reversão parcial dos lucros gerados por tecnologias automatizadas através de impostos específicos;
- A utilização de fundos soberanos e impostos sobre heranças como fontes complementares de financiamento.
Os defensores da ideia argumentam que estes instrumentos permitiriam canalizar parte da riqueza criada por sistemas automatizados para pagamentos regulares aos cidadãos, reduzindo a volatilidade de rendimentos em cenários de desemprego estrutural.
Consequências e desafios
A concretização de uma «renda universal financiada pela IA» envolve desafios políticos e técnicos significativos: definir bases de tributação de bens e serviços produzidos por IA, mensurar os lucros atribuíveis à automação, e decidir a governação de fundos que distribuam esse rendimento. Além disso, a proposta coloca questões sobre incentivos ao trabalho, sustentabilidade fiscal e a eficácia em prevenir desigualdades crescentes num contexto de transformação tecnológica rápida.
Enquanto alguns grupos e investigadores promovem modelos e cenários, estes permanecem, por agora, na esfera das propostas e do debate público. A discussão ilustra, porém, que a tecnologia deixou de ser apenas uma questão de inovação técnica para se transformar num tema central de políticas económicas e sociais.