Joel Mokyr, laureado com o Prémio Nobel de Ciências Económicas de 2025, afirmou na conferência Febraban Tech 2026 que a tecnologia continuará a ser o principal motor do crescimento económico nas próximas décadas, embora com retornos marginais menores face ao passado. A intervenção, focada nas interacções entre ciência, inovação e política, assinalou também riscos sociais e ideológicos que podem comprometer a capacidade dos países de aproveitar as novas ferramentas — em particular a inteligência artificial.
O papel da tecnologia e os limites do crescimento
Mokyr explicou que as transformações tecnológicas dos últimos dois séculos alimentaram um crescimento económico acelerado, mas que esse ritmo dificilmente se repetirá ao mesmo nível. Segundo o economista, é possível continuar a crescer, mas a eficácia adicional de cada unidade de capital agregado tenderá a reduzir-se.
Para o historiador económico, a inovação não surge apenas da ciência em abstracto: existe um sistema — redes de conhecimento, instituições, mercados e fluxos humanos — que se desenvolve até atingir um potencial ou «teto» estrutural. Nesse contexto, as tecnologias emergentes, nomeadamente a inteligência artificial generativa, chegam com capacidade para acelerar investigações e processos científicos.
Inteligência artificial: potencial e incertezas
Mokyr sublinhou a sofisticação actual das ferramentas de IA e a sua utilidade em «pesquisas sérias», mas mostrou cautela quanto à previsibilidade dos seus impactos a médio prazo. «A pergunta é: o que a IA vai fazer por nós?», disse, lembrando que é difícil antever com precisão a configuração tecnológica dentro de 10 a 15 anos.
«A pergunta é: o que a IA vai fazer por nós?»
Esta distinção entre potencial e incerteza é central na sua leitura: as tecnologias de grande alcance podem gerar saltos de produtividade, mas a forma como se integraram nas economias depende de factores institucionais e sociais.
Ameaças ao ecossistema de inovação
Mokyr identificou três vetores ideológicos que considera perigosos para a ciência e a inovação: fragmentação (incluindo nacionalismo económico), populismo e xenofobia. Na sua apreciação, estas tendências reduzem a cooperação internacional, desvalorizam o papel dos intelectuais e limitam a mobilidade de talento — elementos que historicamente foram cruciais para avanços científicos e tecnológicos.
- Fragmentação: barreiras comerciais e tarifárias que podem desacelerar o comércio e a difusão de tecnologia.
- Populismo: tendência para deslegitimar peritos e instituições académicas, enfraquecendo a base científica.
- Xenofobia: imposição de obstáculos à imigração qualificada, reduzindo a circulação de talento que contribui para inovação.
Como exemplo prático da fragmentação, Mokyr referiu as tarifas recentemente impostas pelos Estados Unidos, que, na sua leitura, têm impacto negativo no ritmo do crescimento económico global. Relativamente à mobilidade de talento, salientou que muitos laureados com prémios de relevo nos EUA foram, em certa medida, fruto de contributos de imigrantes.
Implicações para políticas públicas e empresas
A mensagem de Mokyr tem implicações práticas para decisores e gestores: garantir que as estruturas que suportam investigação e inovação se mantêm abertas e cooperativas é tão importante quanto investir em tecnologia. Os riscos que emergem de políticas proteccionistas ou de descrédito das elites científicas podem reduzir a eficácia das ferramentas tecnológicas que se pretende aproveitar.
Na perspectiva do editor de tecnologia, esta intervenção relembra duas lições fundamentais:
- O progresso tecnológico por si só não garante benefícios universais; depende de instituições, regulamentação e fluxos de talento.
- As decisões políticas sobre comércio, imigração e confiança nas instituições científicas moldarão o valor real que sociedades conseguem extrair de tecnologias como a IA.
| Ameaça | Efeito potencial |
|---|---|
| Fragmentação | Redução da difusão tecnológica e do comércio |
| Populismo | Desvalorização do conhecimento especializado |
| Xenofobia | Perda de talento e capacidade inovadora |
As observações de Mokyr são um apelo à combinação de investimento tecnológico com políticas que preservem canais abertos de cooperação e mobilidade. A tecnologia pode continuar a impulsionar a economia, mas o contexto político e institucional determinará quão eficaz e inclusivo será esse impulso.