Os recentes episódios de calor intenso em Portugal anteciparam a vindima em várias regiões do país, como o Alentejo e o Douro, e colocaram produtores perante a necessidade de decisões mais ágeis sobre o momento de colheita e as práticas de gestão da vinha.
Tradicionalmente iniciada em setembro em muitas zonas, a colheita foi adiantada «uma a duas semanas» no Douro e chegou a começar em julho em áreas mais quentes, como o Alentejo e o Tejo, segundo informações transmitidas à Lusa pela ViniPortugal.
Alterações de calendário e necessidade de precisão
O presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, sublinha que a data da vindima varia conforme a região, as castas e as parcelas, mas que há uma tendência clara de antecipação associada ao aquecimento e à maior frequência de episódios de calor. Esta realidade impõe uma monitorização contínua das vinhas e a tomada de decisões mais rápidas sobre o momento ideal para colher.
«A data da vindima varia bastante entre regiões, castas e parcelas [...]. Ainda assim, temos observado uma tendência de antecipação em várias regiões, associada, sobretudo, ao aumento das temperaturas e à maior frequência de períodos de calor intenso, que aceleram a maturação da uva».
Falcão acrescenta que, apesar da tendência geral, o essencial é colher cada parcela quando existe «o equilíbrio adequado entre maturação, acidez, açúcar e perfil aromático». A preocupação centra-se, portanto, não apenas no calendário, mas na qualidade final da uva e do vinho.
Práticas agrícolas em revisão
As mudanças climáticas estão a obrigar a uma revisão de práticas que antes eram comuns. Onde antes se podia expor cachos para acelerar a maturação, hoje há uma tendência a protegê-los com folhagem para reduzir o impacto de períodos de calor extremo. Para além desta alteração no manejo da planta, os responsáveis e associações do setor apontam outras medidas necessárias:
- Monitorização constante da maturação e condição hídrica;
- Utilização mais eficiente da água e gestão criteriosa do solo;
- Escolha de castas mais tardias ou mais resistentes ao calor e à seca, conforme o território;
- Decisões rápidas sobre a data de vindima para preservar perfil aromático e equilíbrio químico.
Segundo a ViniPortugal, em Portugal identificaram-se mais de 250 castas autóctones, cada uma com comportamento distinto face ao calor, à seca e ao stress hídrico, o que condiciona as respostas possíveis em cada região e exploração.
Impacto regional
Os efeitos não são homogéneos. Enquanto no Douro se registou um adiantamento moderado — da ordem das uma a duas semanas — nas zonas mais quentes do país as vindimas começaram já em julho. Esta diferença realça a necessidade de soluções adaptadas a cada microclima e a cada tipo de vinha.
| Região | Impacto observado |
|---|---|
| Douro | Vindima adiantada cerca de 1 a 2 semanas |
| Alentejo | Colheitas iniciaram-se em julho (antecipação significativa) |
| Tejo | Colheitas iniciaram-se nas últimas semanas de julho |
Para o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal, Luís Mira, citado pela Lusa, a tendência observada nos últimos anos traduz-se numa realidade que obriga a mudanças estruturais na agricultura. Em média, nos últimos 15 anos, as vindimas têm vindo a registar variações que refletem as novas condições climáticas.
Produtores e associações concordam que, além de alterações nas práticas de campo, será necessário investir em conhecimento sobre as castas mais adequadas a cada região e em tecnologias de gestão hídrica e de solo para aumentar a resiliência do setor face a eventos climáticos mais frequentes e intensos.
O desafio colocado pelo aquecimento global traduz-se, assim, não apenas num adiantamento do calendário agrícola, mas numa necessidade premente de adaptação técnica e estratégica para garantir a qualidade das vindimas e a sustentabilidade das explorações vinícolas portuguesas.