O Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, apresenta até 31 de janeiro de 2027 a exposição «Coleção IFC: Matéria de sonhos», uma seleção de aproximadamente 200 peças de joalharia portuguesa produzidas entre os séculos XVII e XIX. A mostra, com curadoria de Rosa Maria Mota, provém de um dos mais significativos conjuntos privados dedicados à ourivesaria em Portugal, reunido ao longo de quatro décadas.
Da ostentação à materialização de ideias
A exposição propõe uma viagem que vai além da contemplação do belo: estabelece uma leitura crítica da joalharia como campo artístico e instrumento de memória colectiva. Durante muito tempo confinada ao estatuto de artes decorativas secundárias, a ourivesaria é aqui apresentada como veículo de técnica, símbolo social e poética visual. As peças expostas permitem observar não só a riqueza material — metais, pedras e ornamentação — mas também a transformação das funções e dos significados do adorno ao longo do tempo.
Técnica, estilo e função social
O percurso expositivo destaca a evolução das técnicas e dos estilos, evidenciando o trabalho dos artesãos cujo saber manual sustentou estas objectos. A selecção evidencia a relação entre matéria-prima e conceito: o metal e as gemas tornam-se suportes para ideias, representações identitárias e memórias pessoais ou coletivas. A raridade de muitas peças presentes reforça a tese de que a joalharia integra o património cultural e a história material do país.
- Período das peças: séculos XVII a XIX.
- Número aproximado de objetos: 200.
- Curadoria: Rosa Maria Mota.
- Origem: Coleção privada IFC, constituída ao longo de quatro décadas.
- Duração da exposição: até 31 de janeiro de 2027.
Raridade e memória coletiva
Ao ressaltar peças raras, a mostra sublinha a ligação entre joalharia e identidade: objectos que foram portadores de estatuto social, de afectos e de narrativas familiares transformam-se, no contexto museológico, em documentos de leitura da história cultural. Esta revalorização supera a ideia de que o adorno é sinónimo de ostentação, propondo uma interpretação que integra valor estético, técnico e simbólico.
| Elemento | Significado |
|---|---|
| Materia-prima (metais, gemas) | Suporte físico para ideias e simbolismos |
| Técnica e ofício | Testemunho do papel dos artesãos na construção estética |
| Funcionalidade social | Indicador de posições sociais e práticas de uso |
«Coleção IFC: Matéria de sonhos» instala-se assim como uma das raras oportunidades de observar em conjunto um acervo privado de joalharia portuguesa, permitindo ao público e aos investigadores aceder a peças que, fora deste contexto, seriam de difícil consulta. A mostra convida também a repensar a joalharia como domínio artístico autónomo e relevante para os estudos de cultura material.
Ao recuperar o papel dos ofícios e das técnicas e ao enfatizar a relação entre objecto e memória, a exposição reforça a importância das colecções privadas na composição do património público e no diálogo entre coleccionismo, museologia e história da arte. Para além do brilho das pedras e do labor do ouro, sobressai uma narrativa sobre identidade, desejo e imaginação — a matéria dos sonhos que dá nome à colecção.