Os medicamentos oncológicos demoram, em média, 926 dias a chegar aos doentes em Portugal desde a aprovação a nível europeu, revela uma análise integrada hoje divulgada durante um encontro que decorreu nos serviços sociais da Câmara Municipal de Lisboa. O intervalo português supera a média da União Europeia, de 655 dias, e aponta o acesso à inovação como um dos principais constrangimentos no percurso terapêutico dos doentes com cancro.
Processos submetidos e aprovados
Entre 2020 e 2025 foram submetidos ao Infarmed um total de 57 processos relativos a medicamentos oncológicos. Destes, resultaram a aprovação de 26 novos fármacos e a implementação de 37 programas de acesso precoce, segundo os dados reunidos pela análise desenvolvida pela empresa Inizio Engage e apresentados publicamente nesta terça-feira.
«926 dias»
Problemas além do atraso temporal
O estudo, que cruzou informação oficial nacional e internacional com mais de 70 estudos realizados entre 2024 e 2026 e recolheu testemunhos de médicos, pessoas com doença e cuidadores, identifica outros pontos críticos na jornada do doente oncológico em Portugal.
- Disponibilidade de medicamentos inovadores: Portugal apresenta uma taxa de 61% no período 2021-2024, acima da média da UE27, fixada nos 51%.
- Rutura de 'stock': apontada como uma das razões principais para que 50,8% dos doentes relatem já ter ficado sem medicação pelo menos uma vez.
- Deslocações para levantamento de medicação: a distância média considerada é de 56 quilómetros (ida e volta).
Percepções diferentes entre doentes e profissionais
A análise revela discrepâncias na perceção dos tempos entre o diagnóstico e o início do tratamento. Enquanto a maioria dos doentes referiu um intervalo de «duas a quatro semanas», os médicos apontaram períodos que podem estender-se até «oito semanas». Ainda assim, a maioria dos doentes — 87,8% — afirmou sentir que participou, totalmente ou em parte, nas decisões sobre o seu tratamento.
Consequências e desafios para políticas de saúde
Os atrasos e as interrupções de fornecimento têm implicações directas na qualidade do cuidado, no desfecho clínico e na experiência dos doentes. A diferença entre o tempo médio português e a média europeia evidencia limitações nos processos de incorporação das inovações terapêuticas, nos mecanismos de avaliação e negociação de preços, assim como na logística e distribuição dos fármacos.
O diagnóstico do relatório sugere que as medidas a considerar passam pela agilização dos procedimentos regulamentares nacionais, reforço dos mecanismos de acesso precoce e políticas que minimizem rutura de stock e reduzam o peso das deslocações para os doentes. As autoridades de saúde e as partes interessadas terão de confrontar estes indicadores para diminuir as distâncias temporais e geográficas que condicionam o acesso aos tratamentos.
| Indicador | Valor (Portugal) | Referência UE |
|---|---|---|
| Tempo médio desde aprovação europeia até ao doente | 926 dias | 655 dias |
| Processos submetidos ao Infarmed (2020-2025) | 57 | — |
| Novos fármacos aprovados | 26 | — |
| Programas de acesso precoce | 37 | — |
| Disponibilidade de medicamentos inovadores (2021-2024) | 61% | 51% (média UE27) |
| Doentes que já ficaram sem medicação | 50,8% | — |
| Distância média para levantamento de medicação | 56 km (ida e volta) | — |
Os resultados desta análise aprofundada surgem num contexto de debate crescente sobre a eficácia dos circuitos de acesso aos fármacos inovadores e sobre a necessidade de integrar a voz dos doentes nas decisões políticas. A apresentação na Câmara Municipal de Lisboa reuniu agentes do sector, clínicos e representantes de doentes, em torno de um mapa de fragilidades que exigirá respostas coordenadas para reduzir o tempo e as barreiras que hoje condicionam o tratamento oncológico em Portugal.