Sociedade

Sociedade de Cardiologia propõe levar rastreios cardiovasculares às farmácias para reduzir mortalidade

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia defende a generalização dos rastreios cardiovasculares, com recurso às farmácias e locais de trabalho, e a criação de um plano nacional para combater as cerca de 30 mil mortes anuais por doenças do coração e acidente vascular cerebral.

Sociedade de Cardiologia propõe levar rastreios cardiovasculares às farmácias para reduzir mortalidade
©Ilustração Inês Salgueiro / we-news.com

As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, com um impacto que, segundo a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), exige uma resposta centrada na prevenção e na acessibilidade ao rastreio. Em declarações à agência Lusa, a presidente da SPC defendeu a integração das farmácias nas estratégias de despistagem como forma de aproximar esses rastreios da população.

Rastreio mais próximo: farmácias e locais de trabalho

A dirigente da sociedade científica sublinhou que é possível tornar os rastreios mais acessíveis «seja nas farmácias, seja nos locais de trabalho», complementando-os com informação dirigida aos utentes. Para a SPC, a aposta incide em identificar fatores de risco — hipertensão arterial, colesterol elevado e glicemia — em espaços que a população frequenta com regularidade.

«Nós temos a possibilidade de tornar este tipo de rastreios acessível, seja nas farmácias, seja nos locais de trabalho, e complementar com informação que vai ser crucial para que cada utente, individualmente, seja capaz também de tomar conta da sua saúde»

A proposta enfatiza que o papel das farmácias não seria o de tratamento clínico, mas de rastreio precoce. «Nós estamos a falar de rastrear, nós não estamos a falar de tratar. Isso vai continuar a ser, obviamente, a função depois do médico e do enfermeiro de família», clarificou a presidente da SPC.

Plano Nacional de Saúde Cardiovascular e prevenção

Para além da ampliação dos locais de rastreio, a SPC defende a criação de um Plano Nacional de Saúde Cardiovascular que reúna contributos de sociedades científicas e foque a prevenção como eixo central. A argumentação assenta na estimativa de que uma grande parte da mortalidade prematura por causas cardiovasculares é passível de ser alterada através do controlo dos fatores de risco.

  • Urgência: combater 30 mil mortes anuais por doenças cardiovasculares;
  • Objetivo: democratizar o acesso ao rastreio, tornando-o semelhante a outras campanhas de despistagem;
  • Abordagem: rastreios em farmácias e locais de trabalho, com encaminhamento para cuidados primários quando necessário.

Ao realçar que as doenças cardiovasculares são responsáveis por uma morte «a cada 15 minutos» no país, a SPC coloca o foco na natureza silenciosa destes problemas, que muitas vezes só se manifestam tardiamente com eventos como enfarte ou acidente vascular cerebral (AVC).

Indicador Valor referido pela SPC
Mortes anuais por doenças cardiovasculares 30 000
Frequência média de uma morte 1 a cada 15 minutos

Consequências e desafios

A proposta levanta questões práticas e de coordenação entre diferentes atores do sistema de saúde: formação e acreditação dos profissionais nas farmácias, definição de fluxos de encaminhamento para cuidados de saúde primários, financiamento dos rastreios e garantia de qualidade e privacidade dos dados. A SPC destaca também a necessidade de informação que permita a cada cidadão conhecer o seu risco cardiovascular e agir em consequência.

Segundo a sociedade científica, uma grande percentagem da mortalidade prematura por estas doenças pode ser prevenida através do controlo dos fatores de risco, o que reforça a lógica de medidas de prevenção universais e contínuas, em complemento aos cuidados clínicos já existentes.

Ao propor que as farmácias «sejam mais do que sítios simples para vender medicação ou vender cosméticos e suplementos», a SPC abre um debate sobre a ampliação do papel destes estabelecimentos na promoção da saúde pública, sem retirar a centralidade do médico e do enfermeiro de família no tratamento e acompanhamento clínico.

A proposição surge a propósito do Dia Mundial do Coração, que se assinala na terça‑feira, e coloca na agenda pública a necessidade de políticas concretas que traduzam a prevenção em ações quotidianas e acessíveis à população.

Inês Salgueiro
Inês IA Editora de Sociedade online

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