Uma construtora brasileira incorporou num canteiro de obras uma horta hidropónica instalada na laje térrea de uma torre residencial, com capacidade de produção estimada em 1.400 hortaliças por mês. A iniciativa, descrita pela promotora do empreendimento, integra ações de proximidade com a vizinhança e combina produção alimentar com atividades de partilha e sensibilização.
Do canteiro à mesa: produção e partilha
O espaço, baptizado de «Canteiro de Gentilezas Flamboyant», foi montado no âmbito de obras localizadas na Avenida H, no Jardim Goiás. Já em produção, a horta tem vindo a fornecer kits de hortaliças que são entregues a moradores dos edifícios vizinhos: mais de 100 kits já foram distribuídos, segundo a empresa. Está prevista uma nova colheita especial com receção e entrega de kits, marcada para o dia 12 de setembro.
O sistema adoptado é hidropónico, que dispensa o uso de solo e permite controlar a água e os nutrientes fornecidos às plantas. A promotora destaca que o cultivo é feito «sem a utilização de agrotóxicos» e que a oferta incide sobretudo em folhas de consumo quotidiano — alface, rúcula, couve, salsa, coentro e agrião —, palavras que sublinham a aposta numa produção orientada para alimentação fresca e de proximidade.
Gestão técnica e objetivos sociais
O acompanhamento técnico é assegurado por um engenheiro agrónomo da empresa AMAMBAE, responsável por orientar as etapas do processo e garantir a qualidade dos alimentos produzidos. A promotora explica que a ideia começou de forma experimental, destinando inicialmente os produtos a colaboradores, expandindo-se depois a clientes, fornecedores e moradores vizinhos.
«O objetivo foi trazer algo diferente para o contexto da construção, indo além das práticas convencionais. A partir daí, surgiu a ideia de transformar parte do próprio canteiro em um local de cultivo, que também pudesse promover conexão, bem-estar e relacionamento com as pessoas»,
disse Henrique Cerqueira, superintendente da Flamboyant Urbanismo, citando os resultados já verificados no envolvimento com a comunidade próxima da obra.
Implicações para contextos insulares como Horta
Embora a experiência descrita decorra no Brasil, os princípios que a sustentam são pertinentes para cidades insulares como Horta: o aproveitamento de espaços urbanos temporários, a produção de alimentos de proximidade e a criação de pontos de encontro durante intervenções no espaço público ou privado.
- Produção local: hortas em espaços urbanos podem complementar a oferta de hortícolas frescos em ilhas, reduzindo dependência de cadeias logísticas longas.
- Integração comunitária: iniciativas em canteiros podem suavizar o impacto das obras e gerar relações positivas com moradores.
- Gestão técnica: a presença de acompanhamento profissional garante qualidade e segurança alimentar, essencial em contextos de pequena escala.
Em Horta, onde a insularidade impõe desafios logísticos e encarece a alimentação fresca, modelos de produção urbanos ou periurbanos ganham particular relevância. A experiência do «Canteiro de Gentilezas» evidencia que mesmo áreas temporárias de construção podem ser pensadas para gerar benefícios imediatos à comunidade, se houver planeamento e acompanhamento técnico.
Limites e condições de transferência
Importa sublinhar que o projecto apresentado tem características específicas: trata‑se de uma iniciativa integrada por uma promotora privada, com um engenheiro agrónomo envolvido e soluções tecnológicas (hidroponia) que exigem investimento inicial e gestão técnica. A replicação exige avaliação das condições locais — desde a disponibilidade de lajes e cobertura, à legislação urbanística, passando pela segurança em canteiros e pela aceitação social.
| Característica | Observação |
|---|---|
| Produção | ~1.400 hortaliças/mês (capacidade estimada) |
| Sistema | Hidroponia, sem agrotóxicos |
| Beneficiários | Colaboradores, clientes, fornecedores e vizinhança (kits entregues) |
| Acompanhamento | Engenheiro agrónomo da AMAMBAE |
Para as autoridades locais, grupos comunitários e promotores de Horta, a iniciativa traz uma lição prática: as obras não precisam ser apenas fonte de incômodo — podem ser oportunidade para cultivar alimentos, criar momentos de proximidade e reforçar laços comunitários, sempre com atenção às especificidades técnicas e à segurança.
Na paisagem insular, onde o mar e o solo moldam ritmos de vida e de consumo, pensar de modo criativo e técnico a produção urbana pode contribuir para maior resiliência alimentar e para uma relação mais cuidada entre projectos de construção e as gentes das ilhas.