Um grupo de banqueiros, vencedores do Prémio Nobel da Economia e académicos criou uma fundação dedicada à implementação das propostas do relatório "O Futuro da Competitividade Europeia", publicado há dois anos por Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE). A nova organização, baptizada de "O Grupo do Reno", tem o próprio Draghi como um dos copresidentes e surge da frustração de responsáveis privados perante a lentidão das decisões públicas na União Europeia.
Diagnóstico duro sobre a posição europeia
Na declaração de princípios divulgada pela iniciativa, os promotores sublinham a perda de terreno da Europa na tecnologia e nas indústrias emergentes. Um dos dados destacados é que, entre as 50 maiores empresas tecnológicas mundiais, «apenas quatro são europeias», uma ilustração da fragilidade industrial e de inovação no continente.
«Das cinquenta maiores empresas de tecnologia do mundo, apenas quatro são europeias. Em todas as tecnologias emergentes que moldarão as próximas décadas, a Europa está fraca.»
O Grupo do Reno resume a consequência em termos práticos: se a estagnação persistir, a Europa pode perder progressivamente a capacidade de financiar funções essenciais do Estado moderno — defesa, saúde pública, pensões, educação, investimentos climáticos e redes de proteção social. A mensagem insere-se num quadro estratégico que considera o declínio relativo do modelo de crescimento europeu e o aumento da vulnerabilidade face a choques externos.
Contexto geopolítico e económico
A fundação aponta alterações no ambiente internacional como agravantes dessa situação: políticas proteccionistas dos Estados Unidos, com tarifas elevadas, e a concorrência mais agressiva da China, tanto em mercados terceiros como dentro da própria Europa. Esses fatores, segundo o documento, intensificam o risco de declínio.
Os promotores não consideram o destino europeu como inevitável e apelam a medidas urgentes de política económica e industrial. «O declínio não é inevitável, mas é a direção para onde estamos a caminhar, a menos que tomemos medidas urgentes», lê-se na declaração de princípios, que defende uma estratégia de reconstrução pela via da competição e do crescimento.
Objectivos e composição do novo grupo
Além de Draghi, a iniciativa junta personalidades do mundo financeiro e académico, incluindo presidentes de bancos e laureados com o Nobel da Economia. O objectivo declarado é passar da análise para a execução das recomendações do relatório original, com intervenções práticas que visem reforçar a posição europeia nas tecnologias críticas e nas cadeias de valor estratégicas.
- Implementar as recomendações do relatório «O Futuro da Competitividade Europeia».
- Reforçar a presença europeia nas tecnologias emergentes e nas grandes empresas tecnológicas.
- Mitigar riscos decorrentes de proteccionismo externo e concorrência chinesa.
O documento sublinha ainda que, tradicionalmente, factores externos favoráveis — comércio sob regras multilaterais e a garantia de segurança oferecida pelos EUA — atenuaram o declínio europeu. Contudo, com um quadro global mais adverso, essa margem de manobra reduziu-se significativamente.
| Problema identificado | Impacto potencial |
|---|---|
| Baixa presença em grandes empresas tecnológicas | Perda de liderança tecnológica e oportunidades de crescimento |
| Dependência de factores externos | Vulnerabilidade a choques externos e perda de autonomia estratégica |
Para Portugal, e para outros Estados-membros, a iniciativa pode traduzir-se numa fonte de pressão adicional por reformas que incentivem a inovação, a integração industrial e o apoio público-privado a sectores estratégicos. A criação de uma fundação com figuras de destaque internacional também procura mobilizar capital político e financeiro para acelerar transformações que, segundo os promotores, já não podem esperar.
O Grupo do Reno apela, em suma, a um programa ambicioso: competir, «construir e crescer novamente», aproveitando a dimensão do mercado europeu — que recordam ser o segundo maior do mundo — como vantagem estratégica, se forem tomadas medidas decisivas.
As propostas concretas e o plano de acção da fundação deverão ser apresentados progressivamente, com ênfase em políticas que combinem investimento, regulação e cooperação transnacional. Até lá, a iniciativa promete trazer ao debate público europeiase o desafio da competitividade como prioridade política e económica.