O Banco de Portugal (BdP) anunciou que a economia portuguesa registou um excedente externo de 1.201 milhões de euros no primeiro semestre do ano, um valor que representa uma queda de 45,8% em comparação com o mesmo período de 2025. Em termos mensais, o saldo aumentou em cadeia para 348 milhões de euros em junho, mas permanece abaixo dos patamares observados nos primeiros seis meses de 2024 e 2025.
Principais motores da variação
O BdP atribui a descida do excedente a dois movimentos opostos nas contas externas: um agravamento do saldo da balança de bens e um aumento do excedente na balança de capital. Concretamente, o défice da balança de bens aumentou em 2.508 milhões de euros, enquanto o excedente da balança de capital cresceu 1.325 milhões de euros.
Na balança de bens salientou-se o ritmo acelerado das importações, que cresceram 4.715 milhões de euros, mais do que o dobro do aumento das exportações, que ascendeu a 2.207 milhões de euros. Este descompasso entre importações e exportações explica grande parte da deterioração do saldo comercial.
«O aumento do excedente da balança de capital reflete o incremento dos recebimentos de indemnizações de resseguros provenientes do exterior»
O banco central aponta ainda uma razão concreta para o ganho na balança de capital: pagamentos de indemnizações de resseguros do exterior, em particular relacionados com as tempestades que afetaram o território continental nos primeiros meses do ano. A estas compensações juntaram-se transferências de fundos comunitários classificados como ajudas ao investimento, incluindo verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Situação financeira e contributos por setores
A capacidade de financiamento — que agrega as balanças corrente e de capital — representou 0,8% do PIB semestral. No plano da balança financeira, a economia registou um saldo de 630 milhões de euros até junho, acima dos 285,2 milhões do mês anterior, mas muito abaixo dos 1.862,6 milhões observados um ano antes.
O BdP identifica os setores que mais contribuíram para o saldo financeiro positivo:
- Administrações públicas: aumento dos depósitos no exterior.
- Seguradoras e fundos de pensões: investimento em títulos de dívida de não residentes.
Em contrapartida, o banco central refere que o próprio setor público (o banco central) e as empresas não financeiras apresentaram as maiores reduções de ativos líquidos, resultado do crescimento dos passivos de depósitos e de capital, respetivamente.
Leitura e implicações
O recuo do excedente externo traduz, sobretudo, um excesso de dinamismo das importações face às exportações de bens, o que pode refletir tanto uma recuperação da procura interna como pressões sobre a competitividade externa. Por outro lado, o aumento do excedente na balança de capital relacionado com indemnizações e transferências europeias explica parte da melhoria desse sub‑saldo, mas trata‑se de fluxos de caráter pontual ou condicionados a eventos específicos.
Do ponto de vista da política económica, a combinação de um défice mais pronunciado na balança de bens e um contributo positivo de capitais e depósitos coloca desafios distintos: enquanto a primeira exige atenção às dinâmicas do comércio exterior e da procura interna, a segunda realça a importância de monitorizar fluxos financeiros e de seguros que podem ser voláteis.
| Indicador | Variação (primeiro semestre) |
|---|---|
| Excedente externo | +1.201 M€ (−45,8% vs. 2025) |
| Défice balança de bens | +2.508 M€ |
| Importações | +4.715 M€ |
| Exportações | +2.207 M€ |
| Excedente balança de capital | +1.325 M€ |
| Balança financeira (saldo) | 630 M€ |
Os dados divulgados pelo BdP são essenciais para compreender a posição externa do país e têm implicações para a política macroeconómica, a gestão do risco externo e a formulação de estratégias para melhorar a balança comercial. Mantém‑se, contudo, a necessidade de acompanhar a evolução dos próximos meses para perceber se as pressões nas importações são temporárias ou sinalizam um desvio estrutural do comércio externo português.