Um estudo conduzido pelo Centro de Investigação e Inovação em Saúde Mental (CISM) apurou que 66% dos estudantes de medicina inquiridos apresentaram sintomas de depressão em intensidade moderada a grave, enquanto 50,5% manifestaram sinais de ansiedade. A investigação envolveu 1.026 alunos de 74 instituições públicas e privadas e foi publicada na Brazilian Journal of Psychiatry.
Perdas no quotidiano e impacto académico
O diagnóstico emerge num contexto em que alunos relatam perda de tempo para atividades pessoais e lazer, com consequências na saúde física e mental. Um dos elementos mais evidentes é a redução do tempo dedicado a desporto, hobbies e descanso. Na amostra citada pelo estudo, a escassez de tempo foi o estressor mais referido, seguida por preocupações relativas ao desempenho académico, relações interpessoais, saúde e dificuldades de aprendizagem.
Um testemunho citado no trabalho descreve como a rotina intensa leva à exaustão, problemas de sono, perda de apetite e diminuição da capacidade de concentração — sintomas associados à depressão e frequentemente atribuídos pelos próprios alunos à carga e ao ritmo do curso.
Comparação com padrões internacionais
Os valores encontrados no estudo brasileiro situam‑se acima das médias internacionais para estudantes de medicina: estimativas globais apontam para 27,2% com sintomas de depressão e 33,8% com sintomas de ansiedade durante a formação médica. Os autores sublinham, assim, a dimensão preocupante do fenómeno no contexto nacional comparado ao internacional.
| Indicador | Percentagem (estudo) | Estimativa global |
|---|---|---|
| Depressão (moderada a grave) | 66% | 27,2% |
| Ansiedade | 50,5% | 33,8% |
Currículo oculto e normalização do sofrimento
Os investigadores alertam para a existência de um «currículo oculto» que, segundo reconhecem, contribui para a naturalização do sofrimento como elemento integrante da formação médica. Sobre este ponto, o psiquiatra e investigador Rodolfo Furlan Damiano, um dos responsáveis pelo estudo, afirma:
«Infelizmente, isso faz parte do que a gente chama de currículo oculto, que é uma questão tacitamente passada de que sofrer faz parte»
Esta perspetiva coloca questões sobre a cultura formativa nas faculdades de medicina, a organização dos percursos académicos e a existência — ou não — de mecanismos institucionais eficazes de apoio psicológico e de gestão do tempo.
Consequências para a comunidade académica e propostas de intervenção
Os resultados implicam necessidade de resposta por parte das instituições: desde a monitorização sistemática da saúde mental dos estudantes até ao reforço de serviços de apoio psicológico, passando pela revisão de cargas de trabalho e calendários académicos que contribuam para o equilíbrio entre formação e bem‑estar. A evidência de percentagens elevadas de depressão e ansiedade também convoca autoridades educativas e associações estudantis a promoverem diálogo sobre práticas pedagógicas e ambientes formativos menos nocivos.
- Dados: 1.026 estudantes, 74 instituições públicas e privadas;
- Principais estressores: falta de tempo, desempenho académico, relações, saúde e dificuldades de aprendizagem;
- Comparação internacional: índices nacionais superiores às estimativas globais para estudantes de medicina.
A divulgação destes números surge num momento em que a discussão sobre saúde mental no ensino superior ganha espaço público. Para que as conclusões do estudo se traduzam em políticas concretas será necessário que universidades, faculdades de medicina e reguladores educacionais analisem medidas que reduzam fatores de risco e promovam estratégias de proteção e recuperação da saúde mental dos futuros profissionais de saúde.
O estudo do CISM acrescenta evidência empírica a um fenómeno amplamente referido por alunos e profissionais e coloca no centro do debate a pergunta sobre como formar médicos tecnicamente competentes sem sacrificar o bem‑estar psíquico daqueles em formação.