Economia

Emprego recorde em Portugal contrasta com produtividade por hora abaixo dos níveis de 2000

Em 2025, Portugal atingiu mais de cinco milhões de pessoas empregadas, com uma taxa de emprego de 79,6%, mas a produtividade por hora em paridade do poder de compra caiu para 66,9% da média da UE, inferior ao valor registado em 2000.

Emprego recorde em Portugal contrasta com produtividade por hora abaixo dos níveis de 2000
©Ilustração Marta Figueiredo / we-news.com

Em 2025, a economia portuguesa atingiu um patamar histórico de emprego — mais de cinco milhões de trabalhadores e uma taxa de emprego de 79,6%, acima da média da União Europeia (76,1%). Apesar deste indicador positivo, a produtividade do trabalho por hora, medida em paridade do poder de compra (PPC), ficou em 66,9% da média da UE, um valor inferior ao registado em 2000 (67,6%), segundo a mais recente edição do Snapshot "Comparar para Crescer".

Paradoxo entre emprego elevado e produtividade estagnada

O relatório sublinha um paradoxo estrutural: enquanto a criação de emprego tem sido robusta — em parte impulsionada pela imigração —, a capacidade da economia portuguesa de aumentar o valor acrescentado por hora trabalhada tem sido limitada. A imigração é apontada como um dos factores principais do aumento do emprego, com cerca de 1,1 milhões de trabalhadores estrangeiros por conta de outrem a integrar o mercado de trabalho nacional.

Em termos de posição relativa dentro da União Europeia, Portugal deteriorou-se:

«em termos relativos, a posição de Portugal no ranking da produtividade por hora trabalhada deteriorou-se marcadamente desde 2000, caindo da 17ª posição para a 24ª posição entre os 27 estados‑membros da União Europeia»

Causas identificadas e sectores que explicam o fenómeno

O documento enumera quatro bloqueios principais à melhoria da produtividade:

  • Sub-investimento crónico no setor público e privado;
  • Predominância de sectores de baixo valor acrescentado e de salários reduzidos na criação de emprego;
  • Predomínio de empresas de pequena escala no tecido empresarial;
  • Elevados custos de contexto, que penalizam a competitividade.

Além disso, entre 2011 e 2024, a análise do relatório sobre 12 sectores de actividade mostra que foram criados 684.357 postos de trabalho, com um valor acrescentado bruto (VAB) médio anual por posto de trabalho de €40,4 mil. No entanto, cerca de 60% destes empregos vieram de actividades cujo VAB médio anual é significativamente mais baixo, cerca de €31,7 mil — exemplos citados incluem actividades administrativas, alojamento e restauração, e agricultura.

Comparação com pares europeus e implicações

Enquanto Portugal estagnou ou recuou em termos relativos, a maioria das economias concorrentes registou progressos notáveis na produtividade desde 2000 — com ganhos que variaram entre 9,3 pontos percentuais e 34,7 pontos percentuais, excluindo Itália, Espanha e Grécia que não seguiram essa tendência. Este desfase compromete a convergência com a média europeia e limita a capacidade de aumentar salários reais e financiar políticas públicas.

Indicador Portugal (2025) Referência
Taxa de emprego 79,6% Média UE: 76,1%
Produtividade por hora (PPC) 66,9% da média UE 2000: 67,6% da média UE

As consequências são práticas e imediatas. Menor produtividade por hora traduz-se em menor capacidade de pagar salários mais elevados de forma sustentável, reduz a margem para investimento público e privado em bens públicos e infraestruturas, e torna mais difícil escalar empresas e atrair actividades de maior valor acrescentado. A prevalência de empregos em sectores de baixos VAB também tende a manter a intensidade salarial baixa, um círculo difícil de quebrar sem intervenções estruturais.

O que implica para a política económica

Resolver o problema exige medidas que aumentem a produtividade média da economia: investimento em capital físico e tecnológico, políticas que incentivem a criação e o crescimento de empresas de maior dimensão, qualificação da força de trabalho para empregos de maior valor acrescentado e a remoção de custos de contexto que inibem a competitividade. Sem estas mudanças, o crescimento do emprego, por si só, pode não traduzir‑se numa convergência efectiva com os padrões de rendimento e produtividade europeus.

Os dados do Snapshot colocam, assim, um desafio claro às autoridades e às empresas: capitalizar a expressão quantitativa do emprego e transformá‑la em ganhos qualitativos de produtividade, essenciais para um crescimento sustentado e para a melhoria do bem‑estar económico da população.

Marta Figueiredo
Marta IA Editora de Economia online

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