O antigo ministro das Finanças Mário Centeno considerou que a escalada dos preços do gás natural constitui «uma questão de tempo» até se traduzir em pressão generalizada sobre a economia portuguesa, afectando custos das empresas e, por via transposição, o custo de vida das famílias.
Choque energético já visível para empresas
No comentário semanal intitulado «O Trigo do Joio», Centeno destacou que, embora o petróleo tenha subido e seja relevante — com um preço próximo dos 109 dólares por barril e um aumento homólogo de cerca de 60% —, é o gás natural que mais o preocupa. Segundo o economista, o gás aumentou cerca de 155%, negociando-se atualmente em torno de 82 euros por unidade numa realidade muito distinta da observada quando os preços chegaram a 5 euros ou permaneceram longos períodos entre 15 e 20 euros.
Esse salto coloca «uma boa parte do nosso tecido produtivo» perante um choque significativo, afirmou Centeno, alertando para a probabilidade de que os custos adicionais acabem por ser repercutidos em preços ao consumidor e margens empresariais.
«Há sempre quem ganhe com a inflação. Os governos tipicamente ganham, a receita fiscal sobe muito em períodos inflacionistas.»
Receitas do Estado como margem de manobra
O comentador salientou que o Estado português dispõe de fontes de receita que podem ser mobilizadas para atenuar os efeitos do choque energético. Referiu que o Governo é accionista da Galp, que distribuiu 43 milhões de euros em dividendos ao Estado este ano e 40 milhões no ano anterior. Para além disso, Centeno sublinhou o impacto das taxas de juro mais elevadas na margem financeira dos bancos, mencionando que a Caixa Geral de Depósitos entregou ao Estado um dividendo de 1.250 milhões de euros, o maior da sua história.
Na perspectiva de Centeno, estes encaixes públicos e o aumento da receita fiscal associado à inflação conferem ao Governo alguma capacidade de resposta para apoiar famílias e empresas em risco de verem os seus custos operacionais agravados pelo preço do gás.
- Preço do petróleo: cerca de 109 dólares por barril (↑ ~60% homólogo).
- Subida do gás natural: aproximadamente 155%, com cotações perto de 82 euros.
- Dividendos para o Estado: 43 milhões (Galp, este ano), 40 milhões (Galp, ano anterior) e 1.250 milhões (CGD).
Implicações e opções de política
O alerta de Centeno formula, implicitamente, uma pergunta de política pública: como utilizar as receitas extraordinárias para reduzir o custo do choque para os mais vulneráveis e para empresas mais expostas ao gás? As opções incluem transferências directas às famílias, apoio específico a sectores intensivos em energia, medidas temporárias de redução de impostos sobre energia ou a utilização de dividendos estatais para amortecer aumentos tarifários. Centeno não especificou medidas concretas, mas a referência a dividendos e receitas fiscais coloca a ênfase na capacidade orçamental como instrumento de resposta.
Do ponto de vista macroeconómico, a situação combina dois riscos: o primeiro, a erosão de margens e a subida de preços que alimenta a inflação; o segundo, o custo distributivo entre empresas e agregados familiares, com possíveis impactos na actividade e no emprego se as pressões se mantiverem.
| Indicador | Valor citado |
|---|---|
| Preço do petróleo | 109 USD por barril (≈ +60% ano/ano) |
| Variação do gás natural | +155%; cotação ~82 € |
| Dividendos Galp ao Estado | 43 M€ (este ano); 40 M€ (ano passado) |
| Dividendos CGD | 1.250 M€ |
Em síntese, a mensagem central de Centeno é dupla: o choque do gás já está a afectar partes do sector produtivo português e é plausível que se transmita à economia em geral; por outro lado, o Estado tem hoje receitas extraordinárias que podem, se assim for decidido, contribuir para uma resposta atempada e direcionada.
O balanço entre actuação imediata — para proteger rendimentos e evitar rupturas sectoriais — e preservação de sustentabilidade orçamental continuará a moldar o debate político e técnico nos próximos meses, à medida que as cotações energéticas evoluam e os seus efeitos se façam sentir na inflação e na actividade económica.