Num artigo publicado esta semana pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace, o professor Michael Pettis, da Universidade de Pequim, defende que a China tem hoje menos margem para repetir a solução usada no saneamento bancário do fim da década de 1990 e inícios dos anos 2000, quando o custo do ajustamento foi, em larga medida, transferido para as famílias.
O precedente: saneamento bancário e «repressão financeira»
Pettis recorda que, no final da década de 1990, os quatro maiores bancos estatais chineses eram tecnicamente insolventes, após anos de crédito concedido a empresas públicas e governos locais com critérios políticos e não com base na rentabilidade dos projectos. As estimativas oficiais apontavam então para que entre 25% e 30% das carteiras de crédito fossem empréstimos de cobrança duvidosa; analistas independentes, incluindo o Banco Mundial, estimavam uma proporção mais elevada, entre 40% e 50%.
Para enfrentar a crise, Pequim criou em 1999 quatro sociedades estatais de gestão de activos que adquiriram cerca de 1,4 biliões de yuan em crédito malparado — o equivalente a aproximadamente 178 mil milhões de euros ou a cerca de 20% do PIB chinês da época. Pettis sublinha, contudo, que “
Mover empréstimos de cobrança duvidosa de um balanço para outro não os elimina”, realçando que o custo real do saneamento foi suportado pelas famílias através de políticas de baixos retornos aos aforradores.
Como as famílias suportaram o custo
O economista descreve o mecanismo como «repressão financeira»: as autoridades mantiveram as taxas de juro dos depósitos muito abaixo do crescimento nominal da economia e, por vezes, abaixo da inflação, o que gerou retornos reais muito baixos ou mesmo negativos para as famílias, grandes detentoras das poupanças no país. Por outro lado, empresas estatais e governos locais beneficiaram de crédito a taxas artificialmente reduzidas.
Pettis estima que a transferência de rendimento para esse ajustamento poderia ter chegado a um equivalente a 5% do PIB por ano durante os anos de maior repressão financeira, entre 2001 e 2010.
Por que a solução é menos viável hoje
O argumento central do texto é que a situação actual é diferente: a dívida chinesa cresceu nos últimos 10 a 15 anos a um ritmo que Pettis considera possivelmente «o mais rápido da história», deixando a China com um dos rácios dívida/PIB mais elevados entre as principais economias, apenas atrás do Japão. Essa maior dimensão da dívida reduz a margem para repetir o mesmo mecanismo de transferência de custos para os aforradores domésticos sem provocar custos sociais e económicos elevados.
As implicações práticas são várias e apontam para desafios na governação económica chinesa e na estabilidade financeira global. Entre os efeitos imediatos mencionáveis, citam-se:
- Menor espaço para baixar taxas de juro de depósitos sem causar erosão significativa do poder de compra das famílias;
- Risco político e social acrescido se os rendimentos do setor doméstico forem comprimidos novamente;
- Mais dificuldades em usar intervenções directas nos balanços bancários sem recorrer a medidas fiscais ou a recapitalizações explícitas.
Em suma, Pettis alerta que confiar numa «segunda via» de transferência do custo para os aforradores é hoje uma opção mais limitada e potencialmente mais dispendiosa em termos económicos e sociais do que o foi há duas décadas.
Dados que ilustram o problema
| Indicador | Valor citado |
|---|---|
| Crédito malparado adquirido (1999) | 1,4 biliões de yuan (~178 mil milhões €; ~20% do PIB da época) |
| Estimativa oficial de NPL (final 1990s) | 25–30% |
| Estimativa de analistas independentes | 40–50% |
| Transferência anual estimada para famílias (2001–2010) | ~5% do PIB |
O diagnóstico de Pettis coloca questões centrais sobre a sustentabilidade do modelo de crescimento chinês e sobre a forma como serão geridos futuros riscos bancários e de dívida. Para países e mercados internacionais, isso significa acompanhar de perto as escolhas de política macroprudencial e fiscal de Pequim, já que medidas de ajustamento demasiado agressivas ou dilatórias podem ter efeitos amplos sobre o comércio, os fluxos de capital e o crescimento global.
Num momento em que o mundo vigia sinais de fragilidades financeiras, a análise reforça a necessidade de políticas que equilibrem a estabilidade do sistema financeiro com a protecção do rendimento das famílias.