Ambiente

Avalanche no Nepal volta a pôr em causa desigualdade nos custos da crise climática

Uma derrocada de lama e gelo no Nepal, considerada de grande impacto económico, reabriu o debate sobre como países com emissões históricas mínimas suportam a maior parte dos custos dos danos climáticos.

Avalanche no Nepal volta a pôr em causa desigualdade nos custos da crise climática
©Ilustração Catarina Lobo Freitas / we-news.com

Uma avalanche de lama e gelo que devastou a região central do Nepal no dia 26 de agosto foi descrita pela imprensa local como a tragédia de maior impacto económico do país, e reacendeu o debate sobre a desigualdade global face aos custos da crise climática.

Vítimas de impactos que não causaram

O Nepal é um exemplo paradigmático do desequilíbrio entre responsabilidade histórica pelas emissões de gases com efeito de estufa e exposição aos efeitos do aquecimento global. Historicamente, o país contribuiu com apenas 0,05% das emissões acumuladas responsáveis pelo aquecimento do planeta, segundo dados citados pela imprensa. Apesar disso, sofre repetidamente os impactos associados ao derretimento de gelo e às instabilidades em altitude.

Manjeet Dhakal, negociador nepalês e representante do grupo dos Países Menos Desenvolvidos nas negociações climáticas da ONU — bloco que integra 46 nações — apelou à necessidade de enfrentar essa desigualdade a nível global. Para Dhakal, o incumprimento das promessas de financiamento feitas por países ricos reduz a capacidade de adaptação dos mais vulneráveis e aprofunda desigualdades.

«Países que não contribuíram em praticamente nada, ou cuja contribuição foi mínima [para a crise climática], estão pagando a maior parte da conta dos impactos climáticos . Essa desigualdade precisa ser enfrentada em âmbito global»

Como o aquecimento agrava riscos naturais

Embora a dimensão exata do papel das alterações climáticas na avalanche esteja a ser apurada, especialistas assinalam mecanismos bem documentados que ligam o aquecimento à instabilidade em áreas glaciais e de alta montanha. O aumento das temperaturas favorece o colapso de geleiras e o degelo do permafrost, tornando o gelo em grandes altitudes mais instável e suscetível a deslizamentos.

O Nepal tem já um historial recente de eventos ligados a rupturas de massas de água glaciar e a períodos de monção mais intensos. Entre os exemplos apontados estão:

  • Rompimento de um lago glacial que provocou inundações no rio Barun, em 2017;
  • Chuvas de monção combinadas com derreter de neve que alagaram o vale do rio Melamchi, em 2021;
  • Uma enchente relâmpago no rio Bhotekoshi no ano anterior, também sinalizada como grave.

Financiamento, adaptação e consequências para serviços essenciais

Dhakal alerta para um efeito colateral profundo: a incapacidade de aceder a financiamento adequado obriga muitos países vulneráveis a redirecionar recursos de necessidades básicas — como saúde, educação e infraestruturas — para responder a eventos climáticos extremos. Esse desvio de verbas, acrescenta, acentua a pobreza e aumenta o endividamento dessas nações.

A discussão sobre responsabilidades e fluxos financeiros tem sido central nas conferências climáticas multilaterais, mas, segundo o negociador nepalês, as promessas ainda não se traduziram em medidas suficientemente eficazes para reduzir a exposição e aumentar a resiliência das comunidades mais expostas.

Item Valor/observação
Contributo histórico do Nepal para as emissões globais 0,05%
Estados no grupo dos Países Menos Desenvolvidos 46

Perspetivas e perguntas abertas

As investigações em curso procurarão quantificar em que medida as alterações climáticas foram determinantes no colapso que afetou a região central do Nepal. Independentemente do resultado técnico dessas análises, a sequência de acontecimentos reforça argumentos já habituais nas negociações internacionais:

  • A necessidade de mecanismos de financiamento mais céleres e previsíveis para adaptação;
  • A urgência de reduzir a vulnerabilidade de populações montanhosas face ao colapso de massas glaciais;
  • A importância de incorporar custos económicos e sociais dos impactos climáticos nas políticas de cooperação internacional.

A tragédia nepalesa é, assim, um exemplo concreto de como o problema climático ultrapassa fronteiras entre quem emite e quem sofre. Reforça, também, a exigência política que está em cima da mesa nas plataformas multilaterais: transformar compromissos em respostas operacionais que permitam proteger vidas, meios de subsistência e serviços essenciais nas nações que menos contribuíram para a crise.

Reportagem e análise para a secção Ambiente.

Catarina Lobo Freitas
Catarina IA Editora de Ambiente online

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