Os Açores constam entre as regiões portuguesas que sofreram uma redução nas taxas de ocupação no primeiro semestre de 2026, num panorama nacional marcado por sinais de abrandamento do turismo e por alterações de rendibilidade em segmentos como o alojamento local.
Dados nacionais com repercussão insular
Segundo estatísticas do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgadas recentemente, o consumo turístico em Portugal cresceu 4,9% em 2025, abaixo da variação nominal do Produto Interno Bruto, que subiu 5,9%. Paralelamente, o peso do sector no PIB diminuiu para 16,1%. Estes números refletem uma trajectória de desaceleração que tem impacto directo nas ilhas, onde o turismo tem um papel central na economia local.
Nos primeiros seis meses de 2026, o número de hóspedes estrangeiros aumentou marginalmente (+1,9%) face ao período homólogo. Contudo, as taxas de ocupação por cama e por quarto registaram descidas a nível nacional, com recuos mais acentuados no Alentejo, nos Açores e na Área Metropolitana de Lisboa. Em especial, Lisboa foi a única região onde o preço médio por quarto disponível (RevPAR) caiu no acumulado de Janeiro a Junho de 2026, com uma diminuição de 3,5%.
Impacto no alojamento local e no rendimento por quarto
O segmento do alojamento local da capital também enfrentou quebras: o rendimento por quarto recuou 7,6% e o número de hóspedes diminuiu 3,2%. No arquipélago, operadores e pequenos proprietários acompanham com preocupação os sinais negativos que chegam do mercado urbano e nacional, já que muitas decisões de capacidade e preços nas ilhas são influenciadas pela dinâmica turística do território continental e das cidades pólo.
Contrastes regionais: Porto e Norte em expansão
Em contrapartida, a região do Porto e Norte sobressaiu no primeiro semestre, com um crescimento de 5,4% em dormidas e 5,6% em proveitos, concentrando três em cada quatro dormidas adicionais geradas em todo o país. Este contraste evidencia a heterogeneidade do mercado turístico nacional e aponta para deslocações de procura entre destinos.
- Consumo turístico (2025): +4,9%
- PIB nominal (2025): +5,9%
- Peso do turismo no PIB: 16,1%
- Hóspedes estrangeiros (1.º semestre 2026): +1,9%
- RevPAR em Lisboa (Jan-Jun 2026): -3,5%
- Alojamento local (Lisboa) rendimento por quarto: -7,6%
- Alojamento local (Lisboa) número de hóspedes: -3,2%
Factores que explicam o abrandamento
A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) chamou a atenção para vários factores que contribuem para a desaceleração do sector. Entre esses elementos estão:
- a perda de poder de compra dos consumidores;
- o aumento do custo das viagens;
- a crescente concorrência de outros destinos europeus;
- a inflação nos custos operacionais das empresas.
Para as ilhas dos Açores, qualquer pressão inflacionista nos custos — nomeadamente energia, combustíveis e logística — tende a ter um impacto mais directo e rápido, dadas as distâncias e as especificidades da insularidade. Além disso, a sazonalidade e a dependência de mercados externos tornam a região mais vulnerável a variações de procura.
O que muda para as ilhas
Uma desaceleração moderada no indicador nacional traduziu-se já em desafios concretos para agentes turísticos insulares: menor ocupação em determinadas épocas, pressão sobre tarifas e necessidade de ajustar ofertas para manter atractividade. A forma como o arquipélago se posiciona — quer em termos de promoções, quer na diversificação de mercados emissores e de produtos turísticos (natureza, birdwatching, turismo activo, gastronomia) — será determinante para mitigar efeitos adversos.
| Indicador | Valor / Variação |
|---|---|
| Consumo turístico (2025) | +4,9% |
| PIB nominal (2025) | +5,9% |
| Peso do turismo no PIB | 16,1% |
| Hóspedes estrangeiros (1.º semestre 2026) | +1,9% |
| RevPAR Lisboa (Jan-Jun 2026) | -3,5% |
| Rendimento por quarto (AL Lisboa) | -7,6% |
Para as comunidades insulares, a agenda imediata passa por monitorizar a evolução da procura nos próximos meses, ajustar estratégias de preço e canal de distribuição e procurar apoiar micro e pequenas empresas do sector que enfrentem aumento de custos. A interdependência entre continental e ilhas, o custo de mobilidade e a fragilidade das cadeias logísticas continuam a condicionar a capacidade de resposta do arquipélago.
À medida que chegam novos dados ao longo do ano, acompanhar a evolução regional será essencial para perceber se os Açores conseguirão contornar a tendência nacional de abrandamento ou se necessitarão de medidas específicas de promoção e apoio para sustentar empregabilidade e rendimento local.