Uma ação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) voltou a colocar no centro do debate público, em Curitiba, a presença de um busto que homenageia Flávio Suplicy de Lacerda, ex-reitor e ministro da Educação do regime militar de 1964. Estudantes realizaram uma intervenção no monumento, pichando-o e cobrando a retirada imediata da peça dos espaços abertos da universidade.
Reivindicação estudantil e argumento histórico
No comunicado publicado pelo DCE, a entidade descreve Suplicy como um símbolo de “ameaça à educação pública, gratuita e de qualidade” e atribui a ele medidas que teriam fragilizado a autonomia e a ação política estudantil. Entre as críticas citadas pelos estudantes estão a tentativa de instituir mensalidades nas universidades públicas e a criação de normas que colocaram organizações estudantis como a União Nacional dos Estudantes (UNE), diretórios e centros acadêmicos em posição de ilegalidade, segundo o DCE.
“Derrotado pela mobilização dos estudantes que impediu a realização do vestibular na batalha do politécnico e ocupou os prédios da reitoria em 1968, Suplicy é símbolo de uma ameaça que persiste ainda hoje à educação pública, gratuita e de qualidade. Seu legado é nefasto e não deve ser homenageado.”
Na nota, os estudantes exigem da Reitoria da UFPR a retirada imediata do busto dos espaços abertos da instituição.
Histórico de controvérsias em Curitiba
O busto de Suplicy não é novidade em termos de controvérsia no campus curitibano. Documentos e relatos públicos apontam eventos anteriores em que o monumento foi alvo de atos de resistência estudantil e remoções simbólicas.
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1968 | Busto derrubado pelo movimento estudantil durante mobilizações contra medidas do regime. |
| 1º de abril de 2014 | Peça novamente derrubada em ato considerado “descomemoração” do golpe de 1964. |
| 25 de maio de 2017 | Conselho Universitário (COUN) registrou decisão relacionada ao retorno do busto ao pátio, segundo a UFPR. |
| 2020 | Busto foi recolocado no local; à época, estudantes questionaram o retorno durante a pandemia. |
A Reitoria já afirmou anteriormente que a reinserção do busto foi deliberada em reunião do CONSELHO UNIVERSITÁRIO (COUN) e que a intenção era preservar o patrimônio histórico e artístico da universidade, além de fomentar o enfrentamento crítico do passado sem ocultação. Estudantes, no entanto, sustentam que a permanência do monumento representa homenagem a uma figura ligada a políticas repressivas contra o movimento estudantil.
Consequências e próximos passos
A intervenção do DCE tende a reacender o debate interno sobre preservação de patrimônio, memórias institucionais e os limites das homenagens públicas em instituições de ensino. Entre as possíveis repercussões estão:
- A abertura de diálogos entre a Reitoria, conselhos universitários e representações estudantis;
- eventual instauração de procedimentos administrativos sobre o estado de conservação e a legitimidade da homenagem;
- nova mobilização de setores da comunidade acadêmica que defendem tanto a retirada quanto a contextualização dos elementos patrimoniais.
O episódio também reafirma a centralidade de Curitiba nas disputas por memória e política educacional no Paraná, envolvendo atores diversos — desde representações estudantis até instâncias deliberativas da própria universidade. Até o fechamento desta matéria, não havia nota oficial recente da Reitoria sobre a ação específica de pichação realizada pelo DCE nesta data; a universidade já havia se manifestado no passado sobre a decisão tomada em 2017 e sobre a necessidade de contextualizar o patrimônio.
Para além da UFPR, a controvérsia sobre estátuas e homenagens relacionadas ao período da ditadura militar reverbera em várias instituições do país. Em Curitiba, a discussão reafirma a importância de processos transparentes e participativos ao lidar com memória histórica em espaços públicos e acadêmicos.
Reportagem em acompanhamento: novas manifestações ou posicionamentos oficiais serão cobertos para esclarecer desdobramentos administrativos e eventuais ações reparatórias ou de remoção.