O impacto das cheias que atingiram o Rio Grande do Sul em 2023 e, de forma mais ampla, em 2024, deixou um legado de mudanças nas práticas de gestão de risco adotadas por empresas locais. Setores industriais e de serviços, de diferentes portes, têm implementado ou aperfeiçoado planos de contingência e protocolos operacionais com o objetivo de reduzir prejuízos e assegurar a continuidade das atividades em face de eventos climáticos extremos.
Aprendizado a partir da crise
Relatos de iniciativas e ações praticadas por corporações no Estado mostram que a experiência das enchentes mobilizou tanto a iniciativa privada quanto órgãos públicos a repensar a logística, a infraestrutura e o armazenamento de matérias-primas e produtos. Segundo levantamento incorporado ao Mapa Único do Plano Rio Grande, ao menos 108 mil cadastros ativos de pessoa jurídica foram atingidos diretamente pela enchente de 2024 — o que corresponde a cerca de 9% da rede empresarial gaúcha.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Empresas atingidas (cadastros) | 108.000 |
| Percentual da rede empresarial | 9% |
Medidas adotadas pelas empresas
Entre as ações relatadas por autoridades e por agentes do setor productivo, destacam-se mudanças de logística, realocação de equipamentos e estoques, revisão de rotas de transporte e aprimoramento de planos de emergência. Empresas que lidam com produtos perigosos, por exemplo, têm buscado alternativas para estocar materiais em locais mais protegidos.
- Realocação de equipamentos e matérias‑primas para locais com menor risco de inundação;
- Estabelecimento ou revisão de protocolos internos de resposta a desastres;
- Investimento em infraestrutura de proteção e em seguros específicos;
- Treinamento de equipes para atuação em situações de evacuação e contenção de danos;
- Compartilhamento de práticas com órgãos ambientais e associações empresariais.
Casos ilustrativos
O exemplo da Fontana S.A., indústria localizada em Encantado, no Vale do Taquari, ilustra o movimento de adaptação. A empresa, que produz itens de limpeza e insumos oleoquímicos, passou a priorizar a realocação de equipamentos e estoques após sofrer com as cheias. As medidas adotadas por essa indústria levaram à convocação da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) para que apresentasse seu projeto de resiliência, tornando-se referência técnica em inspeções e protocolos.
"Não podemos mais fechar os olhos para os fenômenos climáticos que, ao que parece, vão ocorrer com mais frequência. Temos dado como orientação a busca por locais mais protegidos para reinvestir quando as perdas forem muito grandes. Quem trabalha com produtos perigosos deve estocar em outros locais, também mais seguros. Com certeza, hoje há uma preocupação muito maior, em geral, com planos de contingência."
Essa declaração, emitida por representantes de entidades empresariais e de infraestrutura, sintetiza a mudança de atitude de setores que antes consideravam eventos extremos como raros ou esporádicos.
Integração com políticas públicas e fiscalização
Além das iniciativas privadas, programas e ações governamentais têm buscado elevar o grau de segurança e coordenação entre esfera pública e empresas. O aprimoramento de fiscalizações e o estímulo à adoção de boas práticas por meio de orientações técnicas e convites a apresentar projetos demonstram uma tentativa de institucionalizar lições aprendidas. A interlocução entre empresas, órgãos ambientais e federações industriais tem sido apontada como fator de multiplicação de soluções locais.
Impacto sobre a cadeia econômica e recomendações
Quando cadeias produtivas são afetadas por inundações, há repercussões que se estendem desde fornecedores menores até clientes finais. A adoção de planos de contingência reduz a probabilidade de interrupções prolongadas e pode preservar empregos e serviços essenciais. Especialistas e lideranças empresariais destacam a importância de avaliações de risco periódicas, investimentos preventivos e da diversificação de pontos de armazenamento para aumentar a resiliência.
Desafios e próximos passos
Entre os desafios persistem a limitação de recursos para investimentos em infraestrutura de proteção por parte de pequenas empresas e a necessidade de políticas públicas que facilitem o acesso a linhas de financiamento específicas. A continuidade de programas de formação técnica e a disseminação de casos bem-sucedidos, como o de Encantado, são apontadas como caminhos para ampliar a capacidade de resposta do setor privado a novas ocorrências climáticas.
O movimento observado no Rio Grande do Sul mostra que, além da reconstrução física, o período pós-cheias tem servido como catalisador para mudanças estruturais na gestão de risco empresarial. A experiência recente indica uma transição rumo a práticas mais preventivas e integradas, essenciais diante da crescente variabilidade climática.