O Governo do Vietname e académicos apelam a uma reforma profunda do sistema educativo para responder às transformações aceleradas pela inteligência artificial (IA), big data, tecnologias de semicondutores, biotecnologia, novas energias, automação e à crescente economia digital. A mensagem central é que a mera transmissão de conteúdos já não basta; é preciso formar cidadãos capazes de criar conhecimento e sustentar a competitividade do país a longo prazo.
Do ensino da memória à produção de competências
O diálogo público sobre a necessidade de mudança coloca em destaque o desenvolvimento de recursos humanos nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) como condição para dominar sectores tecnológicos estratégicos. As transformações tecnológicas não apenas criam novas funções, mas alteram radicalmente métodos de produção, modelos de negócio e as exigências sobre os trabalhadores.
Especialistas citados nas declarações públicas sublinham que vantagens históricas como mão de obra abundante, baixos custos ou recursos naturais deixam de ser suficientes para garantir a competitividade. Por isso, a qualidade do capital humano, a capacidade científica e tecnológica e a aptidão para gerar novo conhecimento são, segundo essas vozes, factores decisivos para a força económica.
Competências exigidas
O discurso oficial aponta para um conjunto de competências consideradas prioritárias na formação actual dos estudantes vietnamitas:
- Capacidade de autoaprendizagem e adaptação contínua;
- Domínio de línguas estrangeiras para inserção em cadeias globais de produção e investigação;
- Competências pessoais, disciplina e integridade académica;
- Capacidade de aplicação prática do conhecimento, pensamento independente, criativo e crítico e resolução de problemas tecnológicos complexos.
O Professor Nguyen Dinh Duc, PhD, da Universidade de Tecnologia da Universidade Nacional do Vietname, em Hanói, advertiu para a necessidade de universidades fortes, cientistas talentosos e equipas de engenheiros-chefes e engenheiros altamente qualificados para que o país consiga dominar tecnologias essenciais, criar produtos estratégicos e construir capacidades de autossuficiência e desenvolvimento sustentável.
De igual modo, Nguyen Tien Thao, director do Departamento do Ensino Superior do Ministério da Educação e Formação, referiu que as qualidades mais relevantes dos estudantes de hoje passam pela autonomia na aprendizagem, domínio de línguas, competências pessoais, disciplina e integridade académica.
Desafios para o sistema educativo
Os intervenientes apontam uma série de obstáculos que o sistema educativo terá de enfrentar para alinhar-se com essas exigências:
- Transformar práticas pedagógicas centradas na transmissão de conteúdos para metodologias centradas na resolução de problemas e no pensamento crítico;
- Reforçar a formação de docentes para que possam orientar aprendizagens activas e projectuais;
- Investir em investigação universitária e em parcerias entre academia e indústria para transformar conhecimento em produtos e tecnologias estratégicas;
- Assegurar que a oferta formativa em STEM responde às necessidades do mercado e às linhas tecnológicas prioritárias do país.
Para clarificar as relações entre desafios e respostas educativas, apresenta-se um quadro de síntese:
| Desafio | Resposta educativa proposta |
|---|---|
| Dependência em mão de obra de baixo custo | Formação avançada em STEM e investigação aplicada |
| Enquadramento curricular centrado na memorização | Metodologias por projectos, pensamento crítico e resolução de problemas |
| Fraca ligação entre universidades e indústria | Parcerias estratégicas e desenvolvimento de centros de investigação |
Implicações para a comunidade escolar e para a política educativa
As recomendações implicam mudanças que vão além do grau académico: exigem políticas de financiamento, revisão curricular, formação contínua de professores e mecanismos que incentivem a investigação e a inovação nas universidades. A comunidade escolar — docentes, estudantes e gestores — terá de ser ouvida e envolvida na implementação, já que a transição para modelos formativos mais orientados para a prática e para a criação de conhecimento depende também de aceitação e capacitação ao nível local.
Num contexto global de rápida evolução tecnológica, o debate no Vietname espelha preocupações partilhadas por muitos países: como articular rendimento económico, soberania tecnológica e equidade educativa através de um sistema que forme não apenas para o emprego imediato, mas para a produção sustentável de conhecimento.
À medida que as autoridades definem prioridades e medidas concretas, o sucesso dessa reforma dependerá da capacidade de mobilizar recursos humanos, financeiros e institucionais para transformar intenções políticas em resultados medíveis no terreno educativo.