O Presidente da República, António José Seguro, pediu esta terça-feira uma alteração no modelo de gestão pública e empresarial em Portugal, com menos centralização das decisões e um esforço para aumentar a dimensão das empresas nacionais. A intervenção foi feita na Covilhã, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Juventude e de um encontro com jovens empreendedores.
Descentralizar decisões e dar escala às empresas
Na sessão com jovens, o chefe de Estado destacou a necessidade de «mudar a maneira como olhamos para os territórios» e criticou a tendência do Estado para intervir e concentrar decisões. A sua análise liga diretamente a organização do aparelho público à capacidade das empresas de criar emprego qualificado e pagar salários compatíveis com o nível de formação dos jovens.
«Nós precisamos mudar a maneira como olhamos para os territórios e como o Estado se tenta sempre imiscuir em tudo e quando centraliza a decisão, então isso dá asneira.»
Seguro sublinhou que o tecido empresarial português é dominado por micro, pequenas e médias empresas, lembrando que «mais de 90% do tecido empresarial» tem essa dimensão, muitas vezes de cariz familiar. Para o Presidente, esse quadro exige políticas que promovam a crescimento dimensional das empresas — quer para absorver os jovens licenciados, quer para assegurar níveis salariais adequados à sua qualificação.
Objectivos apontados e consequências práticas
O discurso articula dois objetivos práticos: por um lado, reduzir a saída de jovens qualificados que procuram emprego noutros países por necessidade e, por outro, criar condições para que a mobilidade seja uma escolha e não uma obrigação. Nesse sentido, Seguro afirmou que «o movimento tem que ser feito e é urgente. Ontem já era tarde».
Entre as prioridades implicadas estão:
- políticas de descentralização que transfiram competências e recursos para níveis locais e regionais;
- iniciativas para promover fusões, internacionalização e investimento que aumentem a escala das empresas portuguesas;
- medidas para ligar formação superior ao mercado de trabalho, garantindo salários que reflitam a qualificação.
Estas propostas colocam foco sobre o desafio estrutural da economia portuguesa: criar empresas suficientemente grandes para competir em mercados externos e oferecer carreiras atractivas aos jovens, sem recorrer a incentivos apenas para reter talento.
Dados e implicações
A relação entre dimensão empresarial e capacidade de gerar emprego qualificado é frequentemente referida por especialistas: empresas maiores tendem a dispor de meios para investir em inovação, formação interna e expansão internacional, o que pode traduzir-se em salários mais elevados e mais oportunidades de carreira. O Presidente enfatizou que o país não pode financiar a formação de jovens para que, por necessidade, parte deles contribua para outras economias.
| Aspecto | Referência no discurso |
|---|---|
| Percentual de PME no tecido empresarial | Mais de 90% |
| Prioridades apontadas | Descentralização; aumento da dimensão das empresas; melhores salários para licenciados |
As propostas de Seguro sugerem um leque de intervenções públicas: desde a revisão das competências administrativas até incentivos à consolidação empresarial e políticas industriais orientadas para a escalabilidade. A eficácia destas medidas dependerá da coordenação entre o Estado central, autarquias, sector privado e instituições de apoio ao investimento.
A manifestação pública de um chefe de Estado sobre estes temas volta a colocar na agenda o debate sobre modelo de desenvolvimento do país: crescimento centrado em pequenas e microempresas versus políticas activas para criar campeões nacionais que escalem em mercados externos. A tradução concreta em medidas e resultados é, entretanto, o passo seguinte e o principal desafio para decisores e agentes económicos.