Um relatório conjunto da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e da World Benchmarking Alliance (WBA) alerta que o crescimento da inteligência artificial (IA) está a colocar à prova os compromissos climáticos das maiores empresas digitais. Com base em dados relativos a 2024, o estudo constata que, embora a IA traga ganhos de eficiência, ela também impulsiona um aumento acelerado do consumo energético e das emissões de gases com efeito de estufa.
Resultados principais do estudo
A publicação, intitulada Greening Digital Companies 2026, avaliou cerca de 200 empresas digitais e analisou indicadores como emissões directas e indiretas, consumo de energia, utilização de fontes renováveis, metas climáticas e planos de transição. Os autores concluem que os progressos em divulgação de dados e utilização de energias renováveis não são, em geral, suficientes para compensar a rápida expansão das necessidades energéticas provocada pela IA e pela infraestrutura de computação em nuvem.
Entre os dados mais salientes, o relatório aponta que as emissões de quatro dos principais fornecedores de serviços de IA e nuvem aumentaram significativamente entre 2020 e 2024, com picos de crescimento até 239%.
| Período | Variacão máxima de emissões |
|---|---|
| 2020–2024 | até 239% |
Uma tensão entre eficiência e procura
O relatório sublinha uma dualidade: as tecnologias digitais, incluindo algoritmos de IA, podem aumentar a eficiência em sectores como energia, transporte e indústria, potenciando reduções de emissões. No entanto, essa mesma transformação cria novas demandas energéticas — data centers mais vastos, maior utilização de GPUs e centros de treino de modelos — que, sem uma transição energética rápida, elevam as emissões totais.
«Embora as tecnologias digitais ofereçam um enorme potencial para a ação climática, não se pode ignorar o aumento de suas necessidades energéticas nem de suas emissões», afirmou a secretária-geral da UIT, Doreen Bogdan-Martin.
O estudo critica a discrepância entre anúncios públicos de neutralidade carbónica e a realidade das trajectórias de emissões. Em muitos casos, a adoção de energia renovável e a publicação de metas ainda não traduzem quedas efetivas das emissões conjunturais associadas ao crescimento da actividade digital.
Implicações práticas
- Empresas: terão de alinhar expansão de infraestruturas com planos de transição energética que sejam verificáveis e temporais, não apenas compromissos de longo prazo.
- Política pública: reguladores e decisores poderão exigir maior transparência e critérios comuns para contabilizar emissões associadas a serviços de IA e nuvem.
- Consumidores e investidores: podem passar a exigir relatórios mais detalhados sobre intensidade energética por serviço e métricas padronizadas que revelem o impacto real da digitalização.
O relatório servirá de referência para debates sobre como conciliar inovação digital com metas climáticas globais. A mensagem central é clara: sem integrar sustentabilidade desde o desenho e a expansão das tecnologias, o benefício climático potencial da digitalização corre o risco de ser anulado pelo aumento absoluto do consumo energético.
Para países como Portugal, onde empresas nacionais e fornecedores internacionais de serviços em nuvem suportam uma parte crescente da economia digital, o estudo reforça a necessidade de políticas que incentivem centros de dados sustentáveis, fontes renováveis e eficiência energética em operações de IA.
O documento da UIT e da WBA não deixa de reconhecer os progressos em áreas específicas, como mecanismos de divulgação e metas anunciadas por empresas. Ainda assim, conclui que o ritmo actual de redução de emissões é insuficiente para cumprir as trajectórias exigidas pelos objetivos climáticos internacionais.
Num momento em que modelos de IA se tornam cada vez mais integrados em serviços públicos, privados e industriais, a relação entre inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental passa a ser um teste decisivo para as promessas de descarbonização do sector digital.