Alunos de escolas públicas estaduais no Rio de Janeiro relatam lacunas significativas na oferta de ensino e preparam‑se por fora para colmatar deficiências que podem comprometer o acesso ao ensino superior. Os relatos surgem no contexto em que a rede estadual figura entre as últimas colocadas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), segundo reportagem baseada em entrevistas com estudantes e especialistas.
Estudantes enfrentam faltas de docentes e conteúdos essenciais
Com 18 anos, o aluno André Monteiro divide o tempo entre aulas no Colégio Estadual Max Fleiuss, na Pavuna, preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e treinos de boxe. André pretende seguir Educação Física na universidade, mas diz recear não estar em posição de igualdade para concorrer a vagas devido à «fragilidade do ensino» que recebe, que o obriga a estudar sozinho em casa.
Outro caso é o de Ícaro Lucas de Oliveira, de 19 anos, que frequenta a Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio Estadual Castelnuovo, em Copacabana. Ícaro queixa‑se da escassez de docentes; afirma que no ano anterior não teve sequer aulas de Química, um défice que considera decisivo para a preparação ao Enem.
«Vai fazer diferença quando chegar a hora do Enem. A gente fica em desvantagem. É um desfalque. É essencial ter todas as matérias»
Os dois estabelecimentos citados estão entre os que obtiveram piores classificações nas avaliações do Saeb e no Ideb. A avaliação geral da rede estadual do Rio revela uma colocação desfavorável: a rede ocupa a penúltima posição nacional por aprendizagem, alinhada a estados como Roraima, Amapá e Amazonas, ficando apenas à frente do Distrito Federal; no ranking de aprendizagem, divide a última posição com a Bahia.
Causas apontadas por especialistas
Especialistas em educação consultados pela reportagem identificam múltiplos fatores que contribuem para o desempenho insatisfatório da rede estadual. Entre as causas mencionadas estão a ausência de uma política pública educativa estável e a oferta insuficiente de turmas e professores qualificados para assegurar o cumprimento do currículo em todas as disciplinas.
A falta de aulas regulares em matérias nucleares, como Ciências e Matemática, e a elevada dependência de estratégias de compensação por parte dos alunos — por exemplo, suporte familiar ou recurso a conteúdos gratuitos na internet — evidenciam uma desigualdade no acesso à aprendizagem de qualidade.
- Falta de docentes em disciplinas essenciais, com alunos a perderem conteúdos inteiros;
- Desigualdade de preparação para o Enem entre estudantes de redes mais e menos favorecidas;
- Políticas públicas instáveis ou insuficientes para garantir ensino regular e de qualidade.
| Rede/Estado | Posição no ranking de aprendizagem |
|---|---|
| Rio de Janeiro (rede estadual) | Penúltima (junto com Roraima, Amapá e Amazonas) |
| Distrito Federal | Última colocação em termos gerais |
| Bahia | Compartilha a última posição no ranking de aprendizagem |
Perante este quadro, as vozes dos estudantes são uma chamada de atenção para a dimensão humana das estatísticas: jovens que ambicionam ingresso no ensino superior sentem‑se obrigados a procurar apoio extracurricular e a confiar em familiares para compensar deficiências que deviam ser asseguradas pela escola pública.
O diagnóstico traçado pelos especialistas aponta para a necessidade de intervenções coordenadas que garantam o cumprimento do currículo, reforço de corpo docente e políticas estáveis para inverter a tendência. Sem medidas concretas, os indicadores remetem para um ciclo de desigualdade educativa que tem efeitos diretos nas oportunidades de milhares de jovens em fases decisivas da trajetória escolar.
Esta reportagem recolheu os testemunhos dos alunos e a análise de académicos que estudam o impacto das avaliações nacionais; as conclusões sublinham a urgência de respostas institucionais para assegurar equidade e qualidade no sistema escolar.