A República Democrática do Congo (RDC) iniciou, na quinta‑feira, a vacinação de profissionais de saúde da linha da frente com doses da vacina Ervebo, medida tomada no contexto do maior e mais letal surto de Ébola registado no país. O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Samuel‑Roger Kamba, que informou que o país recebeu mais de 50.000 doses da vacina e que o programa começaria nas províncias afetadas, com prioridade para os profissionais que enfrentam diretamente os doentes.
Vacina licenciada para outra estirpe: razões e incertezas
A vacina utilizada, Ervebo, está licenciada contra a estirpe Zaire do vírus Ébola e já foi empregue com sucesso em surtos anteriores. No entanto, o surto atual na RDC é provocado pela estirpe Bundibugyo, para a qual não existe ainda uma vacina ou tratamento aprovado. Autoridades de saúde estão a recorrer à Ervebo por evidência pré‑clínica que sugere possível proteção cruzada e para oferecer alguma salvaguarda imediata aos profissionais mais expostos.
Segundo o comunicado do ministério, das 70.000 doses alocadas ao país estão a ser utilizadas 20.000 num ensaio clínico destinado a avaliar a eficácia da Ervebo em seres humanos contra a estirpe Bundibugyo. Este tipo de estudo visa determinar em que medida a imunidade induzida pela vacina pode proteger contra uma estirpe diferente daquela para a qual foi originalmente desenvolvida.
Onde começou a vacinação e como será expandida
A campanha arrancou na cidade de Kisangani, capital da província de Tshopo, no nordeste do país, que integra as seis províncias afetadas pelo surto. O plano das autoridades prevê iniciar a intervenção nas províncias limítrofes de Ituri — zona onde o surto foi detetado inicialmente e onde permanece mais concentrado — e estender progressivamente a estratégia para outras áreas conforme a evolução epidemiológica.
- Início da vacinação: Kisangani (província de Tshopo).
- Prioridade: profissionais de saúde da linha da frente.
- Doses recebidas: mais de 50.000; alocadas 70.000 no total.
- Doses em ensaio clínico: 20.000.
Escala do surto e consequências
O surto, declarado em 15 de maio, já infectou 5.794 pessoas e provocou 2.786 mortes, segundo os números oficiais mais recentes do governo da RDC. Esses valores fazem deste acontecimento a segunda epidemia de Ébola mais mortal alguma vez registada no mundo.
A utilização de uma vacina licenciada para outra estirpe levanta questões operacionais e científicas. A decisão de vacinar profissionais de saúde prende‑se com a necessidade de proteger a capacidade de resposta do sistema de saúde, reduzir o risco de transmissão nos estabelecimentos assistenciais e manter equipas essenciais no terreno. Ao mesmo tempo, prosseguem esforços de investigação e desenvolvimento de vacinas direcionadas à estirpe Bundibugyo.
Várias candidatas vacinais específicas para Bundibugyo encontram‑se em desenvolvimento, incluindo projectos da Universidade de Oxford e da IAVI (Iniciativa Internacional para a Vacina contra a SIDA), segundo as informações divulgadas pelas autoridades e parceiros internacionais. Contudo, essas vacinas ainda não têm aprovação para uso em larga escala.
Implicações para a resposta internacional
O recurso a doses de Ervebo e a realização de um ensaio clínico em humanos sublinham a combinação de medidas emergenciais e investigação aplicada que caracterizam as respostas a grandes surtos de zoonoses. A estratégia adotada na RDC visa equilibrar a necessidade imediata de proteger profissionais de saúde com a exigência ética e científica de avaliar a eficácia em contexto real.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Casos declarados | 5.794 |
| Óbitos | 2.786 |
| Doses alocadas ao país | 70.000 |
| Doses recebidas (informado) | 50.000+ |
| Doses para ensaio clínico | 20.000 |
Enquanto as autoridades congolesas prosseguem a vacinação e a investigação, organizações de saúde internacionais e investigadores acompanham de perto os resultados do ensaio clínico, que poderão informar estratégias futuras para gerir surtos causados por estirpes de Ébola menos estudadas.