Saúde

RD Congo inicia vacinação de profissionais de saúde contra Ébola em meio a surto mortal

Autoridades da República Democrática do Congo começaram a vacinar profissionais de saúde com a vacina Ervebo, licenciada para a estirpe Zaire, enquanto investigam proteção cruzada contra a estirpe Bundibugyo num dos surtos mais letais do país.

RD Congo inicia vacinação de profissionais de saúde contra Ébola em meio a surto mortal
©Ilustração Sofia Marques Antunes / we-news.com

A República Democrática do Congo (RDC) iniciou, na quinta‑feira, a vacinação de profissionais de saúde da linha da frente com doses da vacina Ervebo, medida tomada no contexto do maior e mais letal surto de Ébola registado no país. O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Samuel‑Roger Kamba, que informou que o país recebeu mais de 50.000 doses da vacina e que o programa começaria nas províncias afetadas, com prioridade para os profissionais que enfrentam diretamente os doentes.

Vacina licenciada para outra estirpe: razões e incertezas

A vacina utilizada, Ervebo, está licenciada contra a estirpe Zaire do vírus Ébola e já foi empregue com sucesso em surtos anteriores. No entanto, o surto atual na RDC é provocado pela estirpe Bundibugyo, para a qual não existe ainda uma vacina ou tratamento aprovado. Autoridades de saúde estão a recorrer à Ervebo por evidência pré‑clínica que sugere possível proteção cruzada e para oferecer alguma salvaguarda imediata aos profissionais mais expostos.

Segundo o comunicado do ministério, das 70.000 doses alocadas ao país estão a ser utilizadas 20.000 num ensaio clínico destinado a avaliar a eficácia da Ervebo em seres humanos contra a estirpe Bundibugyo. Este tipo de estudo visa determinar em que medida a imunidade induzida pela vacina pode proteger contra uma estirpe diferente daquela para a qual foi originalmente desenvolvida.

Onde começou a vacinação e como será expandida

A campanha arrancou na cidade de Kisangani, capital da província de Tshopo, no nordeste do país, que integra as seis províncias afetadas pelo surto. O plano das autoridades prevê iniciar a intervenção nas províncias limítrofes de Ituri — zona onde o surto foi detetado inicialmente e onde permanece mais concentrado — e estender progressivamente a estratégia para outras áreas conforme a evolução epidemiológica.

  • Início da vacinação: Kisangani (província de Tshopo).
  • Prioridade: profissionais de saúde da linha da frente.
  • Doses recebidas: mais de 50.000; alocadas 70.000 no total.
  • Doses em ensaio clínico: 20.000.

Escala do surto e consequências

O surto, declarado em 15 de maio, já infectou 5.794 pessoas e provocou 2.786 mortes, segundo os números oficiais mais recentes do governo da RDC. Esses valores fazem deste acontecimento a segunda epidemia de Ébola mais mortal alguma vez registada no mundo.

A utilização de uma vacina licenciada para outra estirpe levanta questões operacionais e científicas. A decisão de vacinar profissionais de saúde prende‑se com a necessidade de proteger a capacidade de resposta do sistema de saúde, reduzir o risco de transmissão nos estabelecimentos assistenciais e manter equipas essenciais no terreno. Ao mesmo tempo, prosseguem esforços de investigação e desenvolvimento de vacinas direcionadas à estirpe Bundibugyo.

Várias candidatas vacinais específicas para Bundibugyo encontram‑se em desenvolvimento, incluindo projectos da Universidade de Oxford e da IAVI (Iniciativa Internacional para a Vacina contra a SIDA), segundo as informações divulgadas pelas autoridades e parceiros internacionais. Contudo, essas vacinas ainda não têm aprovação para uso em larga escala.

Implicações para a resposta internacional

O recurso a doses de Ervebo e a realização de um ensaio clínico em humanos sublinham a combinação de medidas emergenciais e investigação aplicada que caracterizam as respostas a grandes surtos de zoonoses. A estratégia adotada na RDC visa equilibrar a necessidade imediata de proteger profissionais de saúde com a exigência ética e científica de avaliar a eficácia em contexto real.

IndicadorValor
Casos declarados5.794
Óbitos2.786
Doses alocadas ao país70.000
Doses recebidas (informado)50.000+
Doses para ensaio clínico20.000

Enquanto as autoridades congolesas prosseguem a vacinação e a investigação, organizações de saúde internacionais e investigadores acompanham de perto os resultados do ensaio clínico, que poderão informar estratégias futuras para gerir surtos causados por estirpes de Ébola menos estudadas.

Sofia Marques Antunes
Sofia IA Editora de Saúde online

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